Dólar abre em queda com vitória democrata nos EUA; juros futuros ficam de lado à espera do Copom

O dólar abriu em queda nesta quarta-feira (4), após os democratas conquistarem a maioria nas duas casas do Congresso dos Estados Unidos, em derrota para o presidente Donald Trump nas eleições de meio de mandato (midterms). Às 9h48, a moeda

Por Admin ·

Dólar abre em queda com vitória democrata nos EUA; juros futuros ficam de lado à espera do Copom

Na véspera, o dólar havia fechado em alta de 0,70%, a R$ 5,486, no maior patamar desde dezembro de 2025. O movimento desta quarta acompanha a desvalorização da moeda americana no mercado internacional. No mesmo horário, o DXY, índice que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes, recuava 0,54%.

Os juros futuros abriram próximos da estabilidade nos vencimentos mais curtos e em leve queda nos mais longos, em dia de decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre a taxa básica de juros. A expectativa majoritária do mercado é de manutenção da Selic em 13,75% ao ano.

Pesquisa do BTG Pactual com 54 participantes do mercado financeiro mostra que 77,8% esperam que o Banco Central mantenha os juros no atual patamar em novembro. Segundo o levantamento, para 81,5% dos entrevistados, essa seria a decisão mais prudente. Levantamento da Bloomberg com 31 estimativas de economistas também aponta a expectativa de manutenção, embora cinco participantes considerem possível um novo corte, para 13,50% ao ano.

O cenário doméstico segue pressionado pela piora das expectativas para a inflação. No primeiro Boletim Focus divulgado após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ), divulgado na última terça-feira (3), os economistas elevaram as projeções para o IPCA de 2026 e para a Selic no fim do ano. A estimativa de inflação para 2027 também subiu, a 4,76%, acima do teto da meta.

A decisão do Copom será divulgada após as 18h.

Segundo Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, o Ibovespa também deve começar o pregão sob pressão, após acumular seis sessões consecutivas de queda. O índice está cerca de 20,8% abaixo da máxima registrada em outubro, refletindo o aumento da aversão ao risco entre os investidores.

"O cenário doméstico deve seguir dominado pela expectativa de pausa no ciclo de afrouxamento monetário. A piora das projeções de inflação, a alta dos juros futuros e a depreciação do real reduziram o espaço para o Copom avançar com cortes adicionais sem aumentar a percepção de risco fiscal e de credibilidade da política monetária", afirma.

No exterior, os títulos do Tesouro americano (Treasuries) de dez e 30 anos também recuavam, em meio à repercussão do resultado das eleições legislativas. Os papéis de dez anos tinham queda de 0,71%, com rendimento de 4,927%, enquanto os de 30 anos recuavam 0,46%, com rendimento de 5,301%.

O petróleo Brent operava em queda de 1,41% às 9h54, cotado a US$ 102.

Na véspera, a Bolsa encerrou em recuo de 1,42%, aos 165.528 pontos, no menor valor de fechamento desde janeiro. A reação foi motivada por uma proposta do economista André Lara Resende , um dos formuladores do Plano Real, de reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária. O pregão também repercutiu as eleições de meio de mandato nos EUA , realizadas nesta terça. A expectativa é de avanço do Partido Democrata, de oposição ao presidente Donald Trump .

O movimento também pressionou os juros futuros. As taxas dos contratos de DI para janeiro de 2031 e janeiro de 2035 avançaram mais de 9 pontos-base cada. A alta dos juros futuros reduz a atratividade da renda variável e aumenta a busca por ativos de renda fixa.

O pregão repercutiu uma maior preocupação de analistas em meio às discussões sobre novas políticas econômicas do governo Lula. Nos últimos dias, especulou-se que André Lara Resende planejava apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária para equilibrar a trajetória da dívida pública.

O Executivo negou. Três integrantes da equipe econômica afirmaram que existe uma tentativa de agendar uma reunião de Lula com economistas que possam apresentar visões diferentes sobre como solucionar o problema fiscal. Ainda não há, porém, previsão formal para esse encontro, muito menos uma agenda privada entre Lula e Lara Resende.

Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário do governo (que exclui os juros). Ele retomou a tese em artigo publicado no fim de setembro ( leia a íntegra do texto aqui ). A Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem a um ritmo que a produção de riqueza do país não consegue acompanhar. Para ele, é isso que explica a trajetória explosiva da dívida pública brasileira.

A dívida bruta está hoje em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Como mostrou a Folha , equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos . Para Lara Resende, a saída está na outra ponta e passa por uma espécie de "tabelamento" da taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano e em dois dígitos desde 2022.

A proposta do economista envolveria criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas em conjunto para um horizonte de quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (cerca de 5,5%) —para começar, reduziria a Selic gradualmente ao longo de 12 meses para 7,5%, com uma margem de segurança de 2 pontos em relação ao PIB potencial.

A ideia de "tabelar" a taxa Selic e combinar as políticas fiscal e monetária sob um mesmo conselho gerou mal-estar entre analistas do mercado financeiro. A expectativa é que, caso seja implementada, a proposta eleve a cotação do dólar, em meio a uma forte saída de investidores estrangeiros, pressione os preços de produtos brasileiros e provoque alta dos juros futuros.

A possibilidade de alta da inflação é admitida pelo próprio Lara Resende em sua proposta. Isso ocorreria principalmente pelo canal cambial, já que a saída de capitais desvaloriza o real. Para conter essa depreciação, ele prevê o uso das reservas internacionais do Banco Central, estimadas em US$ 350 bilhões, para "neutralizar" a pressão inflacionária.

"Se começarmos a reduzir a Selic de maneira muito agressiva, sem que os riscos fiscais e institucionais do país tenham diminuído na mesma proporção, o investidor pode questionar se ainda vale a pena manter seu capital por aqui [...] Isso pode reduzir a entrada de capital estrangeiro ou até estimular a saída de recursos do Brasil", diz Fernando Saad Benatti, estrategista global da Avenue.

Diante desse risco, investidores passaram a exigir uma remuneração maior para comprar títulos públicos brasileiros, o que pressionou as taxas negociadas no mercado durante o dia. Os contratos de juros futuros (DIs) com vencimento em janeiro de 2031 e janeiro de 2035 avançaram para 15,37% e 15,42% ao ano, respectivamente, com altas de 9 pontos-base.

No mercado de títulos públicos, o Tesouro IPCA+ com vencimento em agosto de 2032 oferecia rentabilidade de 8,12% ao ano acima da inflação. Já o título prefixado com vencimento em janeiro de 2028 pagava 14,69% ao ano. Ambos registravam as maiores taxas desde o pregão seguinte à vitória de Lula.

No exterior, o foco esteve sobre as eleições de meio de mandato. Nesta terça, os americanos elegerão os 435 deputados e cerca de um terço do Senado (35 de 100). Hoje, os republicanos controlam as duas Casas e dão a Trump uma base favorável.

Uma eventual vitória dos democratas na Câmara abriria caminho para investigações sobre decisões da Casa Branca, incluindo a concessão de vistos a Flávio Bolsonaro (PL) e a possível participação de autoridades americanas em sua saída do Brasil após a derrota para Lula (PT).

A política tarifária de Trump, que gerou atritos com o Brasil no segundo mandato, poderia entrar na mira parlamentar também.

Para Seth Meyer, chefe global de gestão de portfólio de clientes da Janus Henderson, as ações costumam apresentar retornos semelhantes sob controle unificado ou dividido em Washington. "Uma volatilidade maior pode ocorrer em razão da incerteza política, mas um contraponto é que o governo dividido potencialmente protegeu os eleitores de algumas das intenções mais ambiciosas de um único partido".

Na sexta-feira (30), os ativos domésticos encerraram a semana após a reeleição de Lula (PT) para um quarto mandato com fortes perdas. A Bolsa recuou 17,5% na semana e 9,21% em outubro, apesar de ter atingido o patamar histórico de 200 mil pontos neste mês .

Segundo levantamento da Elos Ayta, com dados da B3, a queda semanal foi a quinta maior desde o início do Plano Real, em julho de 1994, e a mais intensa desde março de 2020, quando o Ibovespa recuou 18,88% em uma semana. As empresas brasileiras perderam R$ 996,5 bilhões em valor de mercado no período, segundo a Economatica.

O dólar subiu 9,18% na semana, maior valorização em 18 anos, e acumulou alta de 5,31% em outubro, a maior de 2026.

A vitória de Lula aumentou o receio de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A perspectiva de continuidade de uma política fiscal expansionista eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo e pressiona os juros futuros.