O pregão também repercute as eleições de meio de mandato nos EUA, realizadas nesta terça-feira. A expectativa é de avanço do Partido Democrata, de oposição ao presidente Donald Trump .
Por volta das 9h40, a moeda americana avançava 0,88%, a R$ 5,494. A alta era mais intensa do que a observada no exterior, onde o dólar rondava a estabilidade, com avanço de 0,07%.
Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não no gasto primário (que exclui os juros), e retomou a tese em artigo publicado no fim de setembro (leia a íntegra do texto aqui). A Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem a um ritmo que a produção de riqueza do país não consegue acompanhar. Para ele, é isso que explica a trajetória explosiva da dívida pública brasileira.
A dívida bruta, hoje, está em 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Como mostrou a Folha, equilibrar essa conta exigiria um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos. Para Lara Resende, a saída está na outra ponta e passa por uma espécie de "tabelamento" da taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano e em dois dígitos desde 2022.
A proposta começou a circular no final de semana e gerou temor entre analistas . A Folha também apurou que alguns economistas alinhados ao PT são contra a proposta de Lara Resende e entendem que a simples divulgação de que o governo está cogitando avaliar a proposta cria ruído desnecessário.
No exterior, os americanos elegerão os 435 deputados e cerca de um terço do Senado (35 de 100). Hoje, os republicanos controlam as duas Casas e dão a Trump uma base favorável.
Uma eventual vitória dos democratas na Câmara abriria caminho para investigações sobre decisões da Casa Branca, incluindo a concessão de vistos a Flávio Bolsonaro (PL) e a possível participação de autoridades americanas em sua saída do Brasil após a derrota para Lula (PT).
A política tarifária de Trump, que gerou atritos com o Brasil no segundo mandato, poderia entrar na mira parlamentar também. As investigações não seriam necessariamente direcionadas ao Brasil, mas poderiam envolver negociações comerciais com o países estrangeiros.
Na sexta-feira (30), a moeda fechou em alta de 1,12%, cotada a R$ 5,447, na maior cotação desde 30 de dezembro de 2025, quando encerrou o pregão a R$ 5,4879. A moeda avançou em um dia marcado pela formação da taxa Ptax de fim de mês e pela divulgação de dados do mercado de trabalho brasileiro .
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou 0,74%, aos 167.921 pontos, no menor patamar desde 19 de agosto. Foi a quinta sessão consecutiva de queda, em uma semana marcada pela continuidade dos ajustes dos investidores após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ). As incertezas sobre a condução da política econômica e a trajetória da dívida pública continuam pressionando os ativos brasileiros.
Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, diz que a queda acumulada da Bolsa desde o recorde de 209 mil pontos representa uma desvalorização próxima de 20%. Para ele, o movimento reflete a desmontagem de uma aposta que havia ganhado força entre os investidores antes do segundo turno: a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno à frente nas urnas.
Entre o primeiro e o segundo turno das eleições , a Bolsa subiu quase 7%, impulsionada principalmente por ações de empresas dos setores de varejo, construção, consumo e educação.
"Com a reeleição do Lula, essa aposta foi desmontada de uma vez. Aí o recado é que o investidor voltou a cobrar um prêmio de risco maior para o Brasil, principalmente pelo lado fiscal. Sem dúvidas, a continuidade do governo reduz a expectativa de mudança nas contas públicas, empurrando o juro longo para cima e dificultando cortes mais agressivos da Selic", diz.
Gass também destaca a saída de investidores estrangeiros, que contribui para a pressão sobre as ações. Apenas na quarta-feira, o saldo de investimentos estrangeiros na Bolsa registrou saída de R$ 2,8 bilhões. "Então, não é pânico isolado, e sim uma reprecificação do risco-país", afirma.
A estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, lembra que, já na segunda-feira, primeiro pregão após o segundo turno das eleições presidenciais, o Ibovespa sofreu uma queda superior a 13%, acionando o mecanismo de interrupção das negociações conhecido como circuit breaker.
Além das incertezas domésticas, o ambiente externo também contribuiu para a cautela. O mercado acompanhou a decisão do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos , de manter os juros , em meio à preocupação com os próximos passos da política monetária americana e seus efeitos sobre os ativos de risco.
Para as próximas semanas, Nossig espera que a Bolsa brasileira continue sensível ao noticiário político e às sinalizações sobre a transição de governo. Os investidores aguardam anúncios mais concretos sobre a condução fiscal e os nomes que estarão à frente da equipe econômica para avaliar os próximos passos da política econômica.
Ainda no cenário doméstico, a taxa de desemprego do Brasil ficou em 5,2% no trimestre até setembro, o menor patamar para esse intervalo na série histórica iniciada em 2012, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O indicador estava em 5,4% nos três meses encerrados em junho, que servem de base de comparação. Os dados integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).
Para André Valério, economista sênior do Inter, os números vieram em linha com as expectativas e reforçam a trajetória de desaceleração do mercado de trabalho.
"Nossa leitura é que vemos um mercado de trabalho muito próximo do pico e com pouco espaço para continuar melhorando. As últimas leituras dos dados de emprego apontam para uma perda de dinamismo, com poucas atividades conseguindo aumentar a população ocupada de maneira consistente, além do comportamento da renda real, que sugere menor poder de barganha dos trabalhadores, sinal de afrouxamento do emprego na margem."
O economista afirma que, diante da tendência de desaceleração da atividade e do comportamento recente da curva de juros, espera que o mercado de trabalho continue perdendo dinamismo, embora ainda permaneça em um patamar robusto.
António Ricciardi, economista do Banco Daycoval, também destaca a importância de acompanhar a massa salarial, indicador que ajuda a medir a influência do mercado de trabalho sobre a atividade econômica.
"Quando a gente olha para esses dados, eles parecem estar convergindo para aquilo que a gente espera para o final do ano: um crescimento da massa salarial encerrando o ano em torno de 3,8% em termos reais, na comparação anual, e uma desaceleração gradual, mostrando ainda a resiliência do mercado de trabalho, que ainda se mantém aquecido."
No mercado de câmbio , a formação da Ptax de fim de mês tende a aumentar a volatilidade. Calculada pelo BC (Banco Central) com base nas cotações do mercado à vista, a taxa serve de referência para a liquidação de contratos futuros e é estabelecida no último dia útil de cada mês.