Do Jacarezinho ao Bolshoi: após tentativa frustrada, menina de 12 anos conquista vaga em projeto da escola de balé russa

“Minha mãe, com todas as limitações pós-câncer, não desistiu de correr atrás dos meus sonhos. Foi sol, chuva, vento, tiroteio, ônibus quebrado, tudo isso para chegar aonde estou chegando.” A declaração de Andrielly Messias, de 12 anos, mora

Por Admin ·

Do Jacarezinho ao Bolshoi: após tentativa frustrada, menina de 12 anos conquista vaga em projeto da escola de balé russa

“Minha mãe, com todas as limitações pós-câncer, não desistiu de correr atrás dos meus sonhos. Foi sol, chuva, vento, tiroteio, ônibus quebrado, tudo isso para chegar aonde estou chegando.” A declaração de Andrielly Messias, de 12 anos, moradora do Jacarezinho , resume parte do caminho percorrido até conquistar uma vaga na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, Santa Catarina. Aluna do Ballet Manguinhos desde 2020, ela foi aprovada na chamada especial realizada no mês passado e começará a formação em 2027.

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Para acompanhá-la, a mãe, Renata Soares Barbosa, de 50 anos, dona de casa, e o irmão, Anderson Soares de Souza, também vão deixar o Rio. O pai permanecerá na cidade por causa do trabalho. Para viabilizar a mudança, o projeto social organiza uma campanha de arrecadação que busca ajudar a família a custear as despesas dos primeiros meses.

A aprovação garante a Andrielly bolsa integral de estudos, mas não inclui moradia. A escola não dispõe de alojamento, e despesas como aluguel, matrícula no ensino regular e gastos pessoais ficam sob responsabilidade da família. Renata pretende alugar inicialmente uma quitinete, colocar a casa onde mora atualmente para alugar e vender alguns móveis e eletrodomésticos. A intenção é chegar a Joinville com três ou quatro meses de aluguel pagos, além de recursos para comprar alimentos e itens essenciais. A campanha organizada pelo Ballet Manguinhos recebe contribuições pela chave Pix [email protected].

A relação de Andrielly com a dança começou aos 3 anos, na Creche Jacarezinho (Nacondes). Mas as primeiras aulas não despertaram o interesse da menina, que se recusava a participar das atividades. Foi Michele Ramos, professora da creche e formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, quem aconselhou Renata a não tirar a filha do balé. Aos poucos, a menina começou a gostar da dança.

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— A dança entrou na vida da Andrielly de forma muito natural. No começo, ela não demonstrava nenhum interesse. A professora me orientou a insistir. Ela foi tomando gosto pela arte do balé, pela dança. Por isso, decidi incentivá-la, respeitando seu tempo e suas vontades, sem deixar a leveza e a alegria da infância — conta Renata.

O incentivo da mãe ganhou um significado especial quando a família precisou enfrentar outro desafio. Andrielly ainda era pequena, e Renata recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Ela passou a conciliar o tratamento com os cuidados da filha e a rotina das aulas. As dores, o cansaço e os efeitos do tratamento dificultavam os deslocamentos, mas Renata procurava continuar presente no desenvolvimento da menina.

— Conciliar o tratamento contra o câncer com a rotina de levá-la às aulas foi um dos maiores desafios da minha vida. Houve dias bem difíceis. Muitas vezes, precisei encontrar forças onde parecia não existir mais nenhuma — lembra.

Mesmo diante das limitações físicas e emocionais, Renata buscava acompanhar o aprendizado da filha. Ela conta que teve o apoio de pessoas próximas durante o período mais crítico.

— Ao mesmo tempo em que precisava cuidar da minha saúde, queria estar presente, acompanhar seu desenvolvimento e aprendizado. Nem todos os dias foram fáceis, mas em todos eles eu via a mão de Deus em tudo. Tive anjos físicos ao meu lado sempre — diz.

Em 2020, Andrielly ingressou no Ballet Manguinhos, organização social localizada no Complexo de Manguinhos que há mais de uma década oferece formação artística gratuita a crianças, adolescentes e jovens. No projeto, encontrou acompanhamento pedagógico e oportunidades de participar de audições, workshops e atividades culturais. Em 2025, conquistou também uma vaga na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, vinculada ao Theatro Municipal do Rio, onde atualmente cursa o segundo ano básico.

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A chegada ao Bolshoi exigiu persistência. Andrielly participou de uma primeira seleção em 2024. Segundo o Ballet Manguinhos, cerca de três mil bailarinos concorreram, e ela chegou à etapa final, ficando entre as 40 meninas finalistas. Não conseguiu a vaga naquela ocasião, mas continuou estudando e se preparando para novas oportunidades.

A aprovação veio na chamada especial de outubro deste ano. De acordo com informações da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, a audição prévia realizada no Rio reuniu 52 candidatos, dos quais oito foram selecionados. O processo avalia características físicas, motoras, posturais, musicais e artísticas, além de coordenação, musicalidade, projeção cênica e habilidades técnicas. Os participantes também passam por avaliações médico-fisioterápicas e artísticas, conduzidas por profissionais especializados.

A seleção procura identificar crianças e adolescentes com potencial para desenvolver uma carreira na dança, inclusive aqueles que ainda não tiveram acesso a aulas formais de balé. Para Andrielly, voltar a tentar significou manter vivo um desejo que já havia sido adiado uma vez.

— Meu sonho de estudar no Bolshoi começou quando passei a conhecer melhor a escola e tudo o que ela representa para quem quer ser bailarina. Em 2024, tentei a vaga, mas não consegui. Fiquei triste, porque queria muito, mas não desisti. Continuei me dedicando, aprendendo e tentando melhorar a cada dia. Quando tive uma nova oportunidade, fui com muita vontade de conseguir — conta.

A notícia também emocionou Renata. Ao saber que a filha havia sido aprovada, ela se lembrou da primeira tentativa e do período em que precisou conciliar o tratamento contra o câncer com a rotina da menina.

— Foi uma emoção difícil de colocar em palavras. Um misto de felicidade, orgulho e gratidão e a sensação de que todo o esforço, cada renúncia e cada dificuldade valeram a pena. Depois de tudo o que enfrentamos, especialmente durante o meu tratamento, receber essa notícia teve um significado ainda mais especial — afirma.

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Renata acredita que a aprovação da filha representa uma conquista que ultrapassa os limites da família e do próprio Jacarezinho. Para ela, Andrielly leva consigo a esperança de outras crianças que também sonham em encontrar na dança um caminho para o futuro.

-- Nenhum CEP define onde uma criança pode chegar. Ver a Andrielly, cria do Jacarezinho, chegar no Bolshoi depois de tudo que a gente viveu é a prova que o ballet salva e transforma vidas. Ela é mais uma prova viva de que o projeto BM dá certo. Ela não vai sozinha, ela leva Jacarezinho, Manguinhos, Complexo do Alemão leva toda as comunidades do Rio de Janeiro com ela, e tenho certeza que vai voltar para ensinar as meninas menores.

A aprovação de Andrielly se soma a outras conquistas de alunos do Ballet Manguinhos. Em 2023, José Victor também conseguiu uma vaga no Bolshoi Brasil. Este ano, Beatriz Aguiar, Rogério, Geovana Laysa, Marry Thaina e Davi conquistaram bolsas na Escola de Dança Deborah Colker, enquanto Ryan obteve uma bolsa na Escola de Dança Alice Arja. Os bailarinos também vêm acumulando medalhas e reconhecimento em festivais.

Para Carine Lopes, presidente do Ballet Manguinhos, acompanhar o desenvolvimento da aluna desde 2020 é ver o resultado de uma formação construída ao longo dos anos. Segundo ela, o projeto oferece estrutura e acompanhamento para que os estudantes desenvolvam suas habilidades e tenham acesso a oportunidades em instituições especializadas.

— O Ballet Manguinhos teve um papel importante nessa caminhada, oferecendo formação, acompanhamento pedagógico, estrutura e, principalmente, um espaço onde ela pudesse acreditar no próprio potencial. Essa conquista é fruto do talento e da dedicação dela, mas também de uma rede de pessoas que acreditaram no seu sonho — afirma.

Carine chama a atenção para as barreiras econômicas e sociais que ainda dificultam o acesso à dança clássica. A formação exige continuidade, sapatilhas, figurinos, deslocamentos, alimentação e disponibilidade para uma rotina de dedicação. Para famílias de baixa renda, esses custos podem comprometer a permanência das crianças nas aulas e a possibilidade de seguir carreira. Há também uma questão de representatividade: durante muito tempo, o balé foi associado a determinados espaços e grupos sociais, fazendo com que muitas crianças de comunidades sequer se imaginassem nesse universo.

— Para as crianças das comunidades da Zona Norte, essas histórias mostram que é possível construir uma trajetória profissional na dança, acessar grandes instituições e ocupar espaços que, historicamente, nem sempre estiveram ao seu alcance. Nós temos muito orgulho de mostrar que existe talento nas favelas. O que essas crianças precisam é de oportunidade, formação e pessoas que acreditem nelas — diz Carine.

Em Joinville, Andrielly terá pela frente uma formação de oito anos, que integra o curso técnico de dança clássica ao ensino regular. A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil adota a metodologia Vaganova, referência internacional no ensino do balé clássico. Além das aulas, os estudantes contam com assistência social, orientação pedagógica, atendimento odontológico preventivo, fisioterapia, acompanhamento nutricional e assistência médica de urgência e emergência pré-hospitalar. A proposta da instituição também contempla aspectos como educação, disciplina, autonomia e desenvolvimento humano.

Todos os aprovados recebem bolsa integral, que inclui alimentação, transporte, uniformes e figurinos, além da formação em dança. A moradia, porém, precisa ser organizada pelos responsáveis. Essa é a principal preocupação da família neste momento: Renata, a mãe, terá de estruturar uma nova rotina em outra cidade, enquanto o pai continuará trabalhando no Rio.

A mudança também significa ficar longe de pessoas que fazem parte da vida de Andrielly. A menina cita a avó, o pai, os primos Bernardo e Emilly Sophia, as tias, as amigas da escola e as companheiras do balé entre aqueles de quem sentirá saudade. Apesar da expectativa de viver em outra cidade ainda tão jovem, está animada com a possibilidade de aprofundar sua formação.

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— Sei que vai ser uma mudança muito grande, porque ainda sou nova e vou ficar longe das pessoas que amo. Ao mesmo tempo, estou feliz por ter essa oportunidade e quero aproveitar para aprender bastante, tanto na dança quanto na vida. Acho que vou sentir muita saudade da minha família, mas sei que o apoio dela vai continuar comigo, mesmo à distância — diz.

Joinville representará um recomeço para Renata. Além de acompanhar a filha na nova etapa, ela tem planos próprios: conquistar independência financeira, ter casa própria, ver a família bem e viver em paz e feliz. Para Andrielly, o objetivo é se tornar uma excelente bailarina, continuar estudando e, no futuro, dançar em grandes palcos. A menina também espera que sua trajetória inspire outras crianças do Jacarezinho, de Manguinhos e de diferentes comunidades do Rio a não desistirem da dança.

— Meu maior sonho é me tornar uma grande bailarina, continuar estudando e ter a oportunidade de dançar em palcos importantes. Quero aprender cada vez mais, evoluir e mostrar meu amor pela dança. Também quero que minha história inspire outras crianças da comunidade do Jacaré, de Manguinhos e de todas as partes do Rio a não desistirem dos seus sonhos, mesmo quando as coisas não acontecem na primeira tentativa — afirma a menina.