O presidente do Paraguai , Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira, pressionado pelo iminente início de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados após o colapso do banco digital Ueno . O episódio é o mais recente capítulo de um histórico de instabilidade política no país que, desde 2012, envolve personagens importantes do Executivo, purgas de servidores no funcionalismo público e escândalos bilaterais de grande impacto, revelando a permanente fragilidade das instituições paraguaias diante de disputas partidárias e crises financeiras.
Contexto: Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise no Ueno Bank, mas não evita abertura de processo de impeachment Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
2012: O impeachment de Fernando Lugo e o racha institucional
O ciclo recente de solavancos democráticos no país ganhou força em junho de 2012, com a derrubada do ex-bispo Fernando Lugo. Eleito em 2008 à frente de uma coalizão de centro-esquerda, Lugo havia quebrado a hegemonia de 61 anos do Partido Colorado. Contudo, a ausência de uma base sólida no Congresso transformou seu mandato em um alvo constante da oposição.
O estopim para a queda foi o confronto de Curuguaty, um choque agrário entre policiais e camponeses que deixou 17 mortos. Em uma manobra de "juízo político" concluída em menos de 48 horas, o parlamento destituiu Lugo sob a alegação de "mau desempenho das funções". A rapidez do julgamento provocou reações internacionais e levou à suspensão temporária do Paraguai no Mercosul e na Unasul, enquanto o vice-presidente Federico Franco assumia a chefia do Estado.
Perseguições políticas e o uso da máquina pública
A volta do Partido Colorado ao poder em 2013, com a eleição do empresário Horacio Cartes, escancarou outra ferida crônica do país: a instrumentalização do Estado pela política partidária. Logo após a transição governamental, denúncias de demissões em massa por motivação política se multiplicaram nos órgãos públicos.
Servidores associados a partidos de oposição ou contratados durante a gestão de Lugo relataram perseguições ideológicas e exonerações arbitrárias, destinadas a abrir espaço para correligionários colorados. O episódio consolidou a percepção de que a estabilidade do funcionalismo público paraguaio permanecia condicionada às conveniências do grupo no poder.
2019: A crise energética de Itaipu e a ameaça a Abdo Benítez
Sete anos após o impeachment de Lugo, a instabilidade voltou a assombrar o Palácio dos López durante o mandato de Mario Abdo Benítez. O estopim foi a assinatura de uma ata diplomática secreta com o Brasil para a compra de energia da Usina Binacional de Itaipu.
A divulgação do acordo, que previa custos adicionais milionários para a estatal paraguaia de energia (Ande), forçou a renúncia do chanceler e de diretores do setor elétrico. A crise escalou até o vice-presidente Hugo Velázquez, acusado de atuar nos bastidores para favorecer uma empresa privada brasileira. Para evitar o impeachment, o governo paraguaio negociou com Brasília o cancelamento formal do documento, aliviando a pressão parlamentar a tempo de salvar o mandato de Benítez.
Assista à íntegra: Presidente do Paraguai apresenta renúncia e faz pronunciamento em vídeo
2026: Rombo no banco Ueno e a queda de Santiago Peña
A mais recente turbulência política atingiu o ápice com a renúncia do presidente Santiago Peña. Economista e ex-ministro da Fazenda, Peña assumiu o poder em 2023 sob o apadrinhamento de Cartes, mas viu sua sustentação ruir após a liquidação do banco digital Ueno pelo Banco Central.
A autoridade monetária identificou rombos e insuficiência de caixa decorrentes de empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio grupo controlador. A falência da instituição — da qual Peña havia sido acionista até o ano anterior — bloqueou o acesso aos recursos de 3 milhões de poupadores e reteve cerca de US$ 850 milhões (R$ 4,6 bilhões) em depósitos públicos, incluindo verbas do fundo previdenciário.
Acusado pela oposição de conflito de interesses e omissão na fiscalização, Peña perdeu o apoio do próprio Partido Colorado e de lideranças do Congresso. Diante da certeza da votação do impeachment, o presidente apresentou sua renúncia em pronunciamento oficial, declarando buscar a "estabilidade da nação e o respeito à democracia". Amanobra não impediu a abertura do processo de impeachment pela Câmara.
A sucessão de eventos entre 2012 e 2026 desenha um cenário em que a governabilidade no Paraguai depende de um delicado equilíbrio entre grupos partidários e a preservação do interesse público. Seja por crises de representatividade, escândalos energéticos ou colapsos no sistema financeiro, a liderança do Executivo paraguaio segue sob constante teste de sobrevivência institucional.
Do impeachment de Lugo ao colapso financeiro: a cronologia das crises políticas que afetaram o Paraguai
O presidente do Paraguai , Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira, pressionado pelo iminente início de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados após o colapso do banco digital Ueno . O episódio é o mais recente capít