Do ajuste fiscal à desaceleração da atividade, Lula enfrentará desafios na economia

Reeleito presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará a partir de 2027 uma série de desafios na economia : necessidade de ajuste fiscal, atividade em desaceleração, inflação e juros altos e endividamento em patamar rec

Por Admin ·

Do ajuste fiscal à desaceleração da atividade, Lula enfrentará desafios na economia

Resolvê-los, segundo eles, passa por desatar o nó das contas públicas, em um momento em que a dívida bruta do Brasil já chega a quase 83% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior nível em cinco anos .

Apenas estabilizá-la requer um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos, como mostrou a Folha , forma de garantir que a taxa básica de juros ( Selic ), hoje em 13,75% ao ano, continue caindo.

Economistas ouvidos semanalmente pelo Boletim Focus, do Banco Central , esperam que a taxa seja reduzida a 12% ao ano no final de 2027, mas essa conta embute a expectativa de que algum ajuste fiscal acontecerá.

"O quadro fiscal é frágil, com o déficit primário [receitas menos despesas antes do pagamento de juros] estacionado em torno de 0,4% do PIB [considerando projeção para 2026], mas com gastos elevados de juros e dívida alta e crescente", diz o economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, Felipe Salto.

Chegar ao ajuste necessário , de acordo com ele, envolve conter a alta dos pisos da saúde e da educação, a correção da previdência separada do salário mínimo e uma redução do percentual de contribuição do governo federal ao Fundeb (Fundo da Educação Básica).

Salto aponta ainda a necessidade do fim em etapas do abono salarial, a redução de 50% das emendas parlamentares e um corte de 25% nos gastos tributários.

"Tudo isso precisa ser distribuído em quatro anos, mas com um plano aprovado desde logo. O efeito da aprovação célere se verificará na curva de juros futuros e na própria Selic, além de evitar aprofundar a desaceleração econômica que já está contratada para o ano que vem", afirma Salto.

O Boletim Focus mostra que economistas do mercado financeiro esperam que o PIB cresça 1,83% neste ano e 1,32% no ano que vem . O consumo, que aumentou em média 3,3% nos últimos cinco anos, deve perder ritmo para em torno de 1% neste ano e abaixo disso no ano que vem, cenário decorrente dos juros altos e do endividamento da população.

Em setembro, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda revisou de 2,3% para 2% a projeção de crescimento do PIB em 2026. Para 2027, a estimativa baixou de 2,5% para 2,3%. Apesar da redução, as previsões continuam acima das expectativas do mercado.

"Para a economia crescer de forma sustentável, é necessário uma redução da taxa de juros reais . Mas isso passa, evidentemente, pela necessidade de um ajuste fiscal gradual, com mudanças nas regras de concessão de benefícios, na indexação e por desvincular os gastos em saúde e educação da receita corrente líquida", afirma Silvia Matos, pesquisadora e coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

O boletim do FGV Ibre espera avanço de somente 0,9% da economia no ano que vem, cenário influenciado pela perda de fôlego do consumo das famílias e do governo, além da menor contribuição para o crescimento de setores como agropecuária e indústria extrativa.

"O consumo das famílias, que já está em processo de desaceleração, deve crescer ainda menos em 2027. As famílias, principalmente as de níveis de renda mais baixa, vão precisar honrar suas dívidas, e não haverá mais espaço fiscal para novas rodadas de medidas de estímulo ao consumo."

Há 83,9 milhões de inadimplentes no Brasil, segundo os últimos dados da Serasa, e a inadimplência das famílias no crédito livre, em que as condições são livremente pactuadas entre bancos e clientes, atingiu novo recorde, chegando a 8% em agosto, conforme o BC .

As empresas também enfrentam um cenário cada vez mais desafiador e vêm recorrendo a recuperações judiciais e extrajudiciais .

"A causa do endividamento alto das empresas e pessoas físicas são os juros altos, que incomodam principalmente as empresas. O que vai fazer a taxa de juros baixar? Uma expectativa de inflação menor, a sinalização de um crescimento menor e um ajuste fiscal mais sério", aponta Rafael Schiozer, professor titular de finanças da FGV.

A expectativa é que os preços continuem incomodando no ano que vem, em meio ao cenário externo adverso, com conflitos geopolíticos, e ao fenômeno climático El Niño . O Focus prevê que o IPCA , índice oficial de preços, subirá 4,32% em 2027, acima do centro da meta de inflação, de 3%, e abaixo do teto, de 4,5%.

"O mercado fica na expectativa que tenha algum tipo de ajuste fiscal, mas se isso não acontecer, as expectativas de inflação não cedem e retroalimentam uma inflação mais alta. E, nesse cenário, o Banco Central não pode cortar juros", aponta Ivo Chermont, economista-chefe e sócio da gestora Quantitas. "O dólar está forte no mundo todo e pode atrapalhar."

Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, também chama a atenção para o quadro das contas públicas e cita a falta de um plano de ajuste crível e consistente. "Temos alguns problemas na economia brasileira, e o principal hoje é a questão fiscal."

O novo governo Lula terá outro desafio no comércio exterior, com o aumento do protecionismo no mundo e o clima de embate entre China e Estados Unidos , aponta Welber Barral, sócio do escritório Barral Parente Pinheiro Advogados.

"Serão anos desafiadores. O Brasil vai continuar exportando bastante commodities, que continuarão valorizadas e ajudarão a balança comercial, mas há o grande desafio de exportar bens manufaturados", afirma.

Barral diz que a diversificação de destinos comerciais amorteceu o impacto das tarifas americanas. "O desafio será não voltar à dependência dos Estados Unidos, já que a política unilateralista americana vai se manter pelos próximos anos", afirma. "A pressão americana com relação a minerais críticos e ao comércio digital vai aumentar, é importante que o governo saiba identificar o interesse nacional para reduzir essas pressões."

Na visão de Agostini, o Brasil pode ser protagonista em terras raras e minerais críticos, desde que essa agenda seja bem conduzida. Para 2027, ele também vê incertezas no cenário econômico internacional e riscos climáticos.

O El Niño altera a distribuição das chuvas, o que desafia a produção da agropecuária. Em caso de perdas no campo, há risco de repasses para os preços finais dos alimentos —ponto considerado sensível para a popularidade dos governos.

Lula também terá de administrar o primeiro ano de implementação da reforma tributária .

A principal mudança está marcada para 1º de janeiro, quatro dias antes da cerimônia de posse, quando haverá a substituição de PIS, Cofins, IOF sobre seguros e parte do IPI (imposto sobre industrializados) pela CBS, a nova contribuição federal sobre bens e serviços.

Antes disso, durante a transição, está prevista a definição da alíquota desse tributo e também a edição de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) e de uma medida provisória, que vão tratar do Imposto Seletivo sobre bens e serviços classificados como prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.

Há ainda uma série de pendências que devem ser administradas ao longo do próximo ano, o que inclui adaptações na legislação que serão discutidas em conjunto com estados e municípios e o auxílio às empresas na alteração de documentos fiscais.

Outra pendência é a implementação do split payment , sistema de arrecadação previsto para funcionar no segundo semestre, que será opcional e utilizado apenas em operações entre empresas (B2B).

Os tributos envolvidos na reforma respondem por cerca de um terço da arrecadação administrada pela Receita Federal.