DNA de Jonathan revela pistas sobre envelhecimento lento

Estudo com a tartaruga de 194 anos encontrou padrões ligados à estabilidade celular, mas não identificou uma causa única para sua longevidade.

Por Marcelo Fradim ·

DNA de Jonathan revela pistas sobre envelhecimento lento

Jonathan, uma tartaruga-gigante-de-aldabra de 194 anos, é considerado o animal terrestre mais velho do mundo. Vivendo na Ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, ele ultrapassou em mais de um século o limite superior estimado de longevidade da espécie.

Publicado em 8 de outubro na revista Science Advances, um estudo internacional analisou o genoma e os padrões de metilação do DNA do animal. O objetivo foi buscar explicações para um envelhecimento muito mais lento do que o observado normalmente na espécie.

A expectativa média de vida estimada para a tartaruga-gigante-de-aldabra é de 80,47 anos, e o limite superior calculado é de aproximadamente 93,68 anos. Como a coleta de sangue poderia oferecer risco à saúde de Jonathan, os pesquisadores recolheram material da mucosa da boca enquanto o atraíam com comida.

A amostra permitiu obter material genético para comparar Jonathan com outras tartarugas-gigantes-de-aldabra. Foram encontradas variantes próprias do animal em regiões associadas ao reparo do DNA, à manutenção dos telômeros, à regulação da insulina, ao funcionamento das mitocôndrias, a vias relacionadas ao câncer e ao processamento de RNA.

Outra frente da pesquisa examinou a metilação, processo em que marcadores químicos são adicionados ao DNA e ajudam a regular a atividade dos genes. Em determinadas regiões promotoras, que participam do início dessa atividade, Jonathan apresentou menor entropia de metilação do que tartarugas adultas mais velhas. Isso indica padrões aparentemente mais organizados, já que alterações aleatórias tendem a se acumular com o envelhecimento.

Ao todo, 272 promotores apresentaram baixa entropia de metilação em Jonathan e em duas tartarugas jovens, de 5 e 12 anos. Nos dois adultos mais velhos avaliados, os níveis eram relativamente maiores. Os genes ligados a essas regiões estavam principalmente relacionados à composição e ao funcionamento das mitocôndrias, ao processamento de RNA e à organização dos cromossomos.

O estudo não identificou um gene único responsável pela idade extraordinária da tartaruga. A hipótese dos pesquisadores é que a manutenção relativamente estável de vários processos celulares possa ajudar a preservar o organismo por mais tempo. A produção de energia pelas mitocôndrias, o uso correto das informações do DNA e os mecanismos de reparo do material genético podem atuar de maneira conectada.

Essa possibilidade ainda não comprova uma relação de causa e efeito. Os pesquisadores não demonstraram que as características observadas sejam responsáveis pela longevidade de Jonathan nem confirmaram diretamente que os padrões de metilação resultem em mudanças na expressão dos genes.

Há também uma limitação no número de animais comparados: a análise do metiloma envolveu Jonathan e apenas outras quatro tartarugas-gigantes-de-aldabra, de idades diferentes. Novos estudos, com uma amostra maior, deverão indicar se esse padrão é característico do envelhecimento excepcional da espécie ou se aparece também em outros animais de vida longa.