Segunda-feira Do alto da Cidade Velha se vê o mar Báltico, atravessado diariamente em balsa pelos que vão trabalhar em Helsinque ( Finlândia ), do outro lado. Fica ali a igreja de São Nicolau, hoje um museu, que abriga "Dança Macabra", a assustadora tela de Bernt Notke, de 1463. Dos 30 metros de largura sobraram só sete. Que deslumbre. Cadáveres esquálidos entremeiam o cortejo com o papa, o imperador, a graciosa imperatriz, o bispo e o príncipe. Vivos, têm fisionomias singulares, mas virarão cadáveres intercambiáveis porque a morte deixa todos iguais.
Terça Revejo "Filhos da Esperança", uma tolice de Alfonso Cuarón, só para ir ao cinema Sõprus, um cume da mal-afamada arquitetura soviética. A alta fachada, docemente curva, junta colunas neoclássicas e estrelas do Exército Vermelho. Dentro, um círculo no teto mimetiza o céu noturno e as paredes têm losangos dourados art déco. A escadaria, a sala e a projeção deixam os cinemas paulistanos no chinelo.
Quarta Uma única loja, um café-livraria, vende CDs do compositor Arvo Part, que aos 91 anos é o artista contemporâneo mais conhecido da Estônia. São todos fabricados na Alemanha.
Quinta Em Tartu, no lago Peipus, em cuja margem oposta está a Rússia, há meia dúzia de igrejas dos Velhos Crentes, minúsculo cisma da Igreja Ortodoxa. A dissidência, do século 17, está mais nas formas rituais que na teologia: os ortodoxos fazem o sinal da cruz com dois dedos; os Velhos Crentes, com três. Achei melhor ficar com a mão no bolso nas igrejas.
Sábado Sigulda fica na região de Gauja, chamada de Suíça Letã –apesar de o pico mais alto ter 100 metros. Ela foi desenvolvida pelo nobre Nikolai Kropotkin, primo do príncipe Piotr, o teórico anarquista. O que fazer nessa vila de 15 mil almas? Sauna, num spa tido por suntuoso, mas que não chega aos pés do Aqua Dome, na Áustria.
Segunda Riga, capital da Letônia , é a cidade com o maior número de construções art nouveau da Europa, estilo que os alemães chamam de Jugendstil. Há quadras e quadras de mansões empetecadas "à outrance", cada qual contrastando com as vizinhas. O Gaudí desse delírio báltico é o arquiteto Mikhail Eisenstein, pai do cineasta que inventou o cinema revolucionário russo. Aqui, é ele o gênio, não o filho.
Quarta O Museu das Ocupações rememora a conquista da Estônia pelos nazistas e stalinistas, em 1940 e 1941. Como em todas as cidades, a repulsa aos soviéticos é muito maior que a repulsa aos alemães, talvez porque a ocupação russa tenha durado até 1991, e Putin seja visto como uma ameaça. As sedes e celas da KGB, preservadas com esmero, são um lembrete do perigo recente e do permanente.
Quinta As três repúblicas são planas a perder de vista, não há um mísero morro. Vai-se de uma cidade a outra em linha reta, sem fazer curvas. As estradas são excelentes –e de enfadonha monotonia.
Sexta Em Kaunas, na Lituânia , dia de sol, vento e donuts, o carro-chefe da lanchonete Spurginė. É uma joia construtivista soviética, com balcões e paredes de madeira encerada e mesinhas de metal polido. As atendentes também devem ser stalinistas daquela época: matrioscas rotundas e de maus bofes, com jeito de delatoras.
Sábado O Teatro da Ópera de Vilnius, capital da Lituânia, é maior que a Sala São Paulo e o Theatro Municipal de São Paulo juntos –além de ter acústica melhor. Como costuma ocorrer na Europa, o público se veste como quem vai a uma festa de gala. O espetáculo é "La Fille Mal Gardée", balé cômico criado em 1789 por Jean Dauberval. As bailarinas que fazem Lise, a camponesa, e sua mãe, Simone,o são impagáveis. Tomo uma taça de champanhe em homenagem a elas.
Domingo Vilnius era conhecida como a Jerusalém do Norte até os nazistas assassinarem 95% dos judeus que nela moravam –com a ajuda entusiasmada das milícias lituanas. O gueto deu lugar a um bairro gentrificado, de lojas chiques. Mesmo assim, o odor de morte paira no ar.
Segunda-feira, 5 de outubro O resultado do primeiro turno da eleição é humilhante. A sensação de fracasso –individual, coletivo e sobretudo geracional– é de deixar a gente prostrado.
Diário das repúblicas bálticas
Domingo, 20 de setembro Com 400 mil moradores, Tallinn, capital da Estônia , é do tamanho do Grajaú, o bairro paulistano. É uma cidade silenciosa e clara, boa de andar pelo centro medieval mais bem preservado da Europa . Há bandeiras ucranianas em tudo quanto