Dia do Sapateiro: as mãos que construíram Franca e levaram o calçado ao mundo

Uma viagem de 1820 a 2026 pela história do sapateiro em Franca: padre Alonso, a Jaguar e os Calçados Peixe, a criação da Francal e as famílias que construíram o polo calçadista.

Por Marcelo Fradim ·

Dia do Sapateiro: as mãos que construíram Franca e levaram o calçado ao mundo

Há uma parte da história de Franca que não foi escrita apenas nos livros, nas atas ou nos documentos das grandes empresas. Ela está nas mãos de homens e mulheres que aprenderam a transformar couro, linha, cola e ferramentas em calçados. Em muitas famílias, o trabalho começou cedo, passou por gerações e ajudou a construir casas, bairros e oportunidades. Neste 25 de outubro, Dia do Sapateiro, recordar essa trajetória é reconhecer uma das forças que moldaram a própria identidade francana.

O Sindifranca registra a presença de 14 sapateiros em 1820, quando ainda predominavam oficinas artesanais que atendiam viajantes, tropeiros, criadores e comerciantes. Dos arreios e botinas às fábricas de calçados masculinos de couro, o caminho durou décadas. A disponibilidade de matéria-prima, a circulação de mercadorias, a cafeicultura, o desenvolvimento urbano e, sobretudo, o aprendizado transmitido entre profissionais favoreceram uma especialização que marcaria a economia da cidade.

Padre Alonso: o sacerdote que ajudou a abrir caminho para os curtumes

Padre Alonso Ferreira de Carvalho nasceu em 18 de maio de 1844, em Araxá (MG), foi ordenado em 1874 e chegou a Franca em 1880. O inventário municipal dos patrimônios tombados registra sua atuação como coadjutor e administrador do patrimônio da Matriz, além de empreendedor e financiador de iniciativas econômicas. Sua contribuição à indústria do couro demonstra como diferentes personagens participaram das origens da vocação produtiva francana.

Estudos situam a instalação do Curtume Cubatão entre 1885 e 1886, associando sua iniciativa ao padre. Existe, entretanto, divergência historiográfica sobre qual teria sido o primeiro curtume e sobre a participação exata do religioso como fundador ou financiador. Em 1906, padre Alonso também participou da criação do Curtume Progresso, depois adquirido e modernizado por Carlos Pacheco de Macedo, por volta de 1917 e 1918.

A disponibilidade de couro curtido ajudaria a impulsionar selarias, oficinas e fábricas. Padre Alonso morreu em 19 de setembro de 1929, e sua sepultura no Cemitério da Saudade integra o patrimônio cultural protegido do município. O retrato de 1926, conservado e restaurado no acervo Marcelo Fradim, permite dar um rosto a esse personagem e acompanhar a evolução da própria história do couro em Franca.

A Jaguar: quando a oficina artesanal encontrou a fábrica mecanizada

Uma fotografia identificada como interior do escritório da Calçados Jaguar, em Franca, 1924, mostra funcionários, máquinas de escrever, papéis e móveis de expediente. A imagem cedida ao Amo Franca revela uma transformação que começava a ocorrer na cidade: ao lado do sapateiro que dominava a fabricação em uma bancada surgiam escritórios, máquinas industriais, controle administrativo e representantes comerciais.

O ano de implantação da Fábrica de Calçados Jaguar, ligada a Carlos Pacheco de Macedo, varia entre relatos locais. O material preservado no acervo menciona 1916, enquanto estudos acadêmicos da Unesp e pesquisas sobre a mecanização do polo situam a experiência em 1920 ou 1921. A cronologia mais bem documentada aponta para o começo dos anos 1920, sem apagar a divergência que pode ser solucionada por pesquisa em registros empresariais originais.

A Jaguar representou uma mudança importante para os artífices de banquinho, profissionais que até então confeccionavam calçados quase integralmente à mão, em oficinas modestas, muitas vezes instaladas na própria residência. O maquinário, a divisão de operações e a ampliação das vendas deram outra escala ao ofício. Seu anúncio histórico, reproduzido no acervo desta reportagem, apresenta uma onça e o nome Fábrica de Calçados Jaguar, Carlos Pacheco & Cia., divulgando vendas por atacado, varejo e encomendas.

A presença das mulheres nessa história é documentada desde cedo. Estudos sobre os empregados da Jaguar apontam 76 trabalhadores em 1924, cinco no setor administrativo e 71 na produção. Entre os operários fabris, 24 eram mulheres, sobretudo em tarefas como o pesponto. É um registro que amplia a compreensão da industrialização e ajuda a retirar as sapateiras da posição secundária que muitas narrativas antigas lhes reservaram.

Relatos retrospectivos mencionam 155 funcionários e produção de aproximadamente 400 pares diários no auge da empresa. Como esses indicadores ainda não foram reconciliados com registros contemporâneos, devem permanecer identificados como estimativas históricas, não como série oficial definitiva. A empresa encerrou suas atividades em meados da década de 1920, mas sua importância se prolongou no aprendizado dos trabalhadores e nas máquinas utilizadas por novos negócios.

Uma dessas herdeiras industriais foi a Calçados Peixe, ligada à Honório & Cia., organizada em 1927. Estudos registram que seus empreendedores adquiriram equipamentos oriundos da Jaguar. A fotografia de pessoas no interior dos Calçados Peixe, cedida ao Amo Franca, integra esse capítulo, embora a identificação individual dos retratados ainda deva ser confirmada.

O pioneirismo de Carlos Pacheco é lembrado também na cidade, que deu seu nome à praça vizinha ao Cemitério da Saudade, conhecida como a Pracinha do Cemitério. E existe uma fonte audiovisual rara: a Cinemateca Brasileira cataloga um documentário silencioso sobre a Jaguar, com data aproximada de 1926, que registra escritório, máquinas, setores produtivos, expedição de calçados e a comemoração de Primeiro de Maio. A fábrica pode ter desaparecido, mas as imagens e o conhecimento que ajudou a difundir continuam documentando a alvorada industrial de Franca.

A Francal: a feira que fez Franca se apresentar ao mundo

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, empresas como Samello, Palermo, Spessoto, Mello, Agabê e muitas outras ampliaram a produção, atraíram trabalhadores e movimentaram uma cadeia inteira de fornecedores. Em 1957, fabricantes reunidos com apoio da ACIF iniciaram o movimento de organização empresarial que mais tarde daria origem ao Sindifranca. Mas, para crescer, as fábricas precisavam apresentar os produtos a lojistas e compradores de outras regiões.

Foi nesse cenário que o prefeito José Lancha Filho articulou com os empresários a criação da Francal, Feira do Calçado e Couro de Franca. Sua primeira edição aconteceu de 6 a 21 de setembro de 1969, no Paço Municipal, ainda em construção. Há registros que mencionam 67 fabricantes e uma retrospectiva histórica que aponta 68 empresas participantes, diferença que recomenda conferir a relação original de expositores antes de definir um número definitivo.

A sequência das primeiras edições revela a rapidez do crescimento. A segunda Francal, realizada de 13 a 21 de junho de 1970, ocupou o campo do Palmeiras Futebol Clube, o Palmeirinhas. A terceira, em 1971, aconteceu nos armazéns da Ceagesp. Estudo histórico apoiado em documentos de planejamento municipal registra que a terceira edição superou 70 mil visitantes, ante pouco mais de 40 mil no evento anterior.

Em 1972, o Parque de Exposições construído junto à rodovia Cândido Portinari passou a abrigar a feira. A imagem aérea de seus pavilhões, cedida para este especial, documenta uma transformação urbana e econômica: Franca ganhava uma infraestrutura voltada a eventos e negócios em escala muito maior do que a da primeira edição.

O material reunido pelo Amo Franca permite revisitar os primeiros anos em detalhes. Na primeira edição, em 1969, uma fotografia mostra o estande de Calçados Wilson. Em 1970, a imagem do estande da Spessoto registra pessoas identificadas no acervo como Lourdinha Figueiredo, Carlinho Spessoto e Silvinha Couto Rosa. A terceira Francal aparece em registro do estande da Agabê. Há ainda imagens de recepcionistas, equipes comerciais e encontros de negócios que ajudam a recuperar o cotidiano da feira, para além das estatísticas.

Os cartazes originais de 1969 a 1977 revelam uma linguagem visual surpreendente: formas geométricas, letras marcantes, couro, sapatos, modelos e referências ao mercado internacional. As peças restauradas preservam suas datas, ilustrações e características documentais. Mais do que objetos publicitários, elas mostram como os empresários passaram a pensar a apresentação e a identidade dos calçados francanos.

A última edição da Francal realizada em Franca aconteceu em 1982. Em 1983, a feira foi transferida para São Paulo, acompanhando o aumento do público e a necessidade de uma estrutura maior. Na memória das primeiras edições também permanecem os nomes de José Lancha Filho, Nelson de Paula e da colunista Patrícia, entre os personagens homenageados em comemorações posteriores.

A participação no mercado externo havia começado a se consolidar em maio de 1970, quando a Samello realizou uma remessa de 17 mil pares para os Estados Unidos. Em 1993, segundo o Sindifranca, Franca produziu aproximadamente 31,5 milhões de pares e exportou 15,6 milhões, alcançando receita externa superior a US$ 256 milhões. O polo voltaria a atingir um pico histórico de produção estimada em 39,5 milhões de pares em 2013, com aproximadamente 30,3 mil empregados nas fábricas em outubro, conforme dados divulgados pela ACIF.

Os anos seguintes expuseram a vulnerabilidade do setor às crises e à concorrência global. Ao final de 2015, a indústria local havia recuado para cerca de 17,7 mil trabalhadores e produção estimada em 33 milhões de pares. Essas estatísticas, que seguem metodologias e datas específicas, não anulam a dimensão histórica da Francal: foi a feira nascida em Franca que ajudou a transformar uma produção regional em uma referência comercial nacional e internacional.

Não houve indústria sem seus trabalhadores e trabalhadoras

O crescimento das fábricas também transformou a organização do trabalho. As operações passaram a ser distribuídas entre cortadores, costureiras, montadores, preparadores, pespontadores, acabadores e especialistas em equipamentos. A fabricação deixou de depender de um único artesão e passou a reunir equipes completas, fornecedores de insumos, bancas e oficinas familiares.

Essa história também inclui condições difíceis de trabalho, mobilizações sindicais e desafios de saúde ocupacional. Pesquisas sobre Franca mostram como a terceirização se intensificou a partir dos anos 1980, levando etapas da produção para pequenas unidades e residências. Mulheres sempre fizeram parte desse processo, tanto nas fábricas quanto nas oficinas e no trabalho domiciliar, embora muitos registros institucionais antigos tenham dado a elas visibilidade insuficiente.

A Justiça Federal já analisou casos de trabalhadores expostos a solventes e outros agentes químicos na indústria calçadista. Esse registro ajuda a lembrar que a celebração da profissão também deve incorporar a proteção à saúde, a formação e as condições dignas de trabalho. Valorizar o sapateiro é reconhecer o conhecimento que carrega e os direitos necessários para exercê-lo.

O retrato de Franca em 2026

Levantamento do Instituto de Economia da ACIF, elaborado com dados da Rais 2025 e do Caged de agosto de 2026, aponta 13.187 empregos formais no segmento calçadista de Franca e 3.104 empresas ativas ligadas à atividade, das quais 41,4% são microempreendedores individuais. As informações mostram uma cadeia produtiva diversificada, na qual empresas de diferentes portes convivem com serviços especializados.

O retrato dos profissionais revela uma questão central para o futuro: 50,39% dos trabalhadores estão entre 40 e 59 anos, enquanto apenas 12,34% têm até 24 anos. Outros 30,82% possuem entre 25 e 39 anos, e 6,45% têm 60 anos ou mais. As mulheres representam 45% dos empregos formais, os homens 55%, e a remuneração média mensal registrada é de R$ 2.756,82.

O tempo médio de permanência no emprego é de pouco mais de três anos e meio. A concentração etária mostra a importância da experiência e, ao mesmo tempo, exige respostas para a formação de novas gerações de profissionais. O desafio do polo não se limita à quantidade de vagas: inclui transmitir conhecimento técnico, estimular inovação e oferecer perspectivas de carreira atrativas para quem começa.

É importante distinguir esses indicadores dos levantamentos da Abicalçados. O painel de polos da associação apresenta, em recortes estatísticos diferentes, estimativas de produção, empregos industriais, estabelecimentos e exportações. Por isso, os números dessas instituições não formam, automaticamente, uma série homogênea. Comparar períodos exige conferir ano, atividade abrangida e metodologia.

O mercado brasileiro e os desafios para 2027

O Brasil produziu aproximadamente 847 milhões de pares em 2025, segundo a Abicalçados, queda de 1,9% em relação ao ano anterior. As exportações nacionais somaram aproximadamente 103,94 milhões de pares e US$ 958,2 milhões, enquanto as importações cresceram para 43,2 milhões de pares e US$ 585 milhões.

Os números mostram a força de uma indústria de dimensão internacional, mas também a pressão de calçados importados, tarifas externas, custos produtivos e concorrência global. As estimativas setoriais divulgadas em outubro apontam retração nacional próxima de 2,1% em 2026 e cenário de estabilização com crescimento aproximado de 0,5% em 2027. São projeções para o Brasil, não previsões específicas do polo francano.

Para Franca, inovação não significa abandonar a tradição. Modelagem digital, corte automatizado, gestão de estoques, desenvolvimento de marca própria e mercados especializados podem ampliar a competitividade. O conhecimento dos materiais, a qualidade do acabamento e a experiência de quem trabalha na fabricação continuam sendo vantagens relevantes, desde que encontrem espaço em um setor capaz de se renovar.

Uma memória que precisa continuar acessível

Em 25 de outubro de 2001, Franca inaugurou o Museu do Calçado, criado para preservar ferramentas, peças, fotografias, registros empresariais e a memória do setor. Seu acervo, que já reunia milhares de itens, foi posteriormente reconhecido como patrimônio histórico e cultural por lei municipal de 2022. O Arquivo Histórico Municipal também reúne documentação e imagens capazes de apoiar futuras pesquisas sobre a atividade.

As fotografias históricas cedidas para esta reportagem acrescentam uma dimensão humana a essa memória. A vista da cidade em 1943, os antigos pavilhões da feira, os estandes de fábricas, as recepcionistas, os encontros empresariais e os cartazes originais mostram uma Franca que se apresentava ao mercado por meio da indústria, do trabalho e de uma comunicação visual própria.

Ao completar mais de dois séculos desde os primeiros registros de sapateiros, Franca tem motivos para celebrar e também a responsabilidade de preservar. Uma fotografia sem legenda, um cartaz sem data ou um nome perdido num arquivo representa uma parte da história que pode desaparecer. Identificar pessoas, recuperar documentos e registrar experiências ajuda a transformar a homenagem em conhecimento.

O Dia do Sapateiro pertence a quem construiu fábricas, mas sobretudo a quem trabalhou nelas; a quem criou empresas, mas também a quem costurou, cortou, montou e terminou cada par. A cidade mudou, a indústria se reinventou e os mercados continuam exigentes. Ainda assim, há uma herança que permanece reconhecível: antes de o nome Franca chegar ao mundo estampado em um calçado, ele passou pelas mãos de um sapateiro.


Fontes de pesquisa: Sindifranca; ACIF/IE-ACIF (Rais 2025 e Caged agosto de 2026); Abicalçados e Secex; Francal; Curtume Della Torre; pesquisas acadêmicas da Unesp, UnB e Centro Paula Souza; Cinemateca Brasileira; inventário municipal de patrimônios tombados de Franca. As imagens históricas disponibilizadas pelo acervo particular devem receber créditos e datas individualizados na galeria.

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