O efeito aparece no desempenho de 2026. Até 22 de outubro, o Ibovespa acumulava alta de 27,14%, puxado em parte pela Petrobras , cujas ações ordinárias (PETR3) subiam 100,4% e as preferenciais (PETR4), 88,3%. No mesmo período, o Itaú (ITUB4) avançou 24% e a Axia Energia (AXIA3, antiga Eletrobras), 18,16%. A Vale (VALE3), por outro lado, outra das principais posições do índice, acumulava queda de 15%.
Atualmente, o Ibovespa reúne 76 ativos de 74 empresas, mas a participação de cada ação varia conforme sua ponderação. Com isso, a alta de alguns papéis de maior peso pode sustentar o indicador mesmo quando outros recuam. O movimento inverso também ocorre, ou seja, a queda de ações relevantes pode pressionar o índice apesar da valorização de boa parte do mercado.
O peso não depende apenas do tamanho da empresa. João Vitor Araujo Saccardo, head de renda variável da Convexa Investimentos, diz que a metodologia considera o valor de mercado das ações em circulação, chamado de free float, e estabelece limites de participação. Assim, uma companhia pode ter maior valor de mercado e mesmo assim ter peso menor no índice.
Para o planejador financeiro Bruno Nahon, certificado pela Planejar, a concentração não torna o Ibovespa um indicador ruim, mas exige cuidado ao interpretar seu desempenho como retrato de todo o mercado acionário brasileiro.
A questão atinge, por exemplo, quem aplica em fundos de índice ( ETFs ) que replicam o Ibovespa. Embora reúnam dezenas de ações, esses produtos deixam uma parcela expressiva dos recursos exposta a poucas empresas e setores, o que limita a diversificação efetiva.
Isso não significa, porém, que investir pelo índice seja ruim nem que escolher ações individualmente resolva o problema, diz Saccardo. Uma carteira montada pelo próprio investidor pode ser ainda mais concentrada. Para avaliar a exposição à renda variável, ele diz que é preciso considerar não apenas a quantidade de ativos, mas também os setores, os riscos em comum e o restante do patrimônio.
Além disso, há outros indicadores para medir a concentração, segundo Nahon. O Bovespa Equal Weight dá participação igual a todas as empresas a cada rebalanceamento, e compará-lo ao índice tradicional ajuda a ver se a alta está concentrada em poucos nomes. Outro é a amplitude de mercado, que mostra quantas ações sobem e quantas caem em cada pregão.
A concentração reflete tanto a composição da Bolsa quanto o desempenho das empresas ao longo do tempo, diz Saccardo. No Brasil, o Ibovespa tem peso elevado de companhias de commodities, como Petrobras e Vale, além de bancos e empresas de energia elétrica e saneamento. Nos Estados Unidos , grandes empresas de tecnologia também concentram parte relevante dos índices, como o S&P 500 e, sobretudo, o Nasdaq -100.
Segundo Nahon, Itaú e Petrobras ganharam participação nos últimos anos, assim como as companhias de energia elétrica e saneamento. Já a Vale perdeu espaço, assim como Magazine Luiza e Ambev.
Para Saccardo, as mudanças têm mais relação com os preços do que com transformações na economia. "Não basta que Vale, Petrobras ou os bancos subam: para ganharem participação, precisam ter desempenho superior ao dos demais componentes".
Nahon acrescenta que há um fator estrutural envolvido. Segundo ele, os juros elevados no Brasil pressionam empresas dependentes de crédito e consumo, enquanto podem favorecer bancos consolidados.
A composição da carteira também influencia o movimento. O índice tinha 65 ativos em setembro de 2018, 91 em setembro de 2021 e 76 em setembro de 2026, e a entrada e a saída de papéis podem alterar a distribuição dos pesos.
Tende a persistir enquanto os juros permanecerem elevados, o petróleo estiver caro e o mercado de capitais seguir fechado a novas ofertas de ações, segundo Nahon, que não vê, no curto prazo, catalisadores claros para uma desconcentração significativa.
Segundo o especialista, um ciclo consistente de queda dos juros poderia favorecer a reprecificação de empresas ligadas à economia doméstica. Já a reabertura do mercado de ofertas de ações permitiria a entrada de novas companhias e setores na Bolsa.
Outro fator é a possível inclusão de BDRs de empresas brasileiras negociadas no exterior no índice, a partir de 2027. De acordo com o especialista, a mudança poderia ampliar a diversidade de companhias representadas, mas não garantiria uma redução da concentração.