Eu, que me considero uma mulher progressista, me senti uma senhorinha religiosa ao ler que o "zero um" fez uma festinha numa lancha no Lago Paranoá com direito a profissionais do sexo, bebidas e lobistas para negociar vacina superfaturada com o governo do pai.
Foi em 17 de julho de 2020, dia em que a Covid matou 1.110 brasileiros. Na saída, um executivo da Precisa (a da Covaxin , que o senador defendeu na CPI) tirou o próprio Rolex do pulso e o deu ao parlamentar. O relógio nem me choca mais diante do histórico da "familícia". Mas as três garotas de programa levadas de São Paulo para animar o candidato do "Vem com Fé" testaram meu moralismo.
O fato é que nem deveria me espantar. Venho de uma cidade do interior do Paraná que já foi chamada de capital da Reaçolândia. Coleciono histórias de ex-amigos –por quem fui cancelada por meu posicionamento político–, que na juventude e bem depois dela eram muito chegados em festinhas com puta e pó. Mais de um deles obrigou a namorada a abortar. Fora os homens que mantinham casamentos de fachada quando o município inteiro sabia que eram gays nem um pouco enrustidos. Todos votam 22.
Quem sou eu para julgar a vida dos outros? Pois é, não julgo. Quem fez isso com maestria foi Nelson Rodrigues, que transformou em clássicos da literatura toda a devassidão e as taras inconfessáveis que os homens de bem praticam debaixo dos panos. O dramaturgo sabia como ninguém que, atrás de cada paladino da virtude, há um falsos puritano que posa de santo na sala e chafurda na sacanagem no quarto. E, convenhamos, pulada de cerca de político não tem ideologia, a crônica em Brasília está recheada de casos.
O duro é a cara de pau dessa gente que sempre transforma a disputa eleitoral numa "batalha moral" e jura viver sob o lema "Deus, pátria e família" quando o slogan deveria ser atualizado para "Deus, pátria e orgia", como fez a internet. Mas o problema, segundo essa turma, são as feministas, a autonomia feminina, a liberdade sexual das mulheres, os gays, as lésbicas, a maconha, o aborto legal de menores de idade, o Bolsa Família , o "comunismo", as próprias putas, quando não estão com eles.
E a esbórnia é reincidente. Em setembro, o PlatôBR revelou mensagens de um ex-sócio sobre noitadas de Flávio com acompanhantes ("Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição tá fodaaaa", pedia o organizador à agenciadora). Prostituição entre adultos não é crime no Código Penal, mas, pelo código de honra dos lares brasileiros, a traição deveria escandalizar. Quando o material chegou a Fernanda Bolsonaro, o senador acusou o antigo parceiro de querer "destruir meu casamento e minha família". São sempre os outros os culpados, nunca o homem que, por conta própria, trai os votos que fez à mulher, além daqueles que prega como inegociáveis para a sociedade.
E ainda teve o Carnaval de "KN" , iniciais que têm toda cara de serem de Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair e presidente do TSE. No convescote, caviar, "pessoal tudo pelado na piscina" e quarto para o "ministro com 5 meninas". O ex-ministro Fábio Faria armou a "Festa das Suíças" (120 mulheres para 20 homens), e o deputado Elmar Nascimento pediu "um time aí" para o "profano", implorando depois à revista piauí: "Isso pode acabar com o meu casamento".
O mais sórdido, porém, é a barbárie dos poderosos que tratam mulheres como mercadorias. A CPI do Crime Organizado viu indícios de tráfico internacional nos eventos de Daniel Vorcaro, e diálogos divulgados pelo UOL mostram operadores recrutando jovens, inclusive refugiadas ucranianas, chamadas de "creche" e "escravas". Dos guardiões da virtude não se ouviu um pio. Que moral tem essa gente para falar que a esquerda está acabando com a família? Que família? Aquela formada por homem, mulher, filhos e putas bancadas com dinheiro de propina