Desafio de Lula é isolar extrema direita para unir o país, afirma André Singer

Para o cientista político André Singer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) conseguiu uma inédita virada do primeiro para o segundo turno graças às mobilizações populares de esquerda que tomaram as ruas de diversas cidades do país

Por Admin ·

Desafio de Lula é isolar extrema direita para unir o país, afirma André Singer

Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP , ele considera que as manifestações na avenida Paulista, em São Paulo , foram os maiores atos da esquerda na cidade —talvez no Brasil. "E são uma resposta, ainda que tardia, à grande manifestação da direita na véspera do impeachment da então presidente Dilma Rousseff [PT]", afirma.

Lula venceu Flávio Bolsonaro ( PL ), com 51,79% dos votos válidos contra 48,21%, e foi reeleito para o quarto mandato. Ele conquistou cerca de 10 milhões a mais de votos em relação ao primeiro turno, enquanto o senador cresceu quase 4 milhões.

Autor de livros como "Os Sentidos do Lulismo" e "Impasse: o Brasil Diante da Onda Reacionária", Singer ainda aponta outros fatores importantes para a reeleição do petista: a reorientação da campanha para dialogar com problemas das camadas populares e a incorporação da política digital, com o deputado federal André Janones (Rede-MG).

A eleição de 2026 foi marcada por uma confusão inédita, com a prorrogação do prazo de votação em duas horas além das 17h. Singer descarta que esses problemas não interfiram na legitimidade do pleito. "Até porque os eventos que levaram à dilatação do prazo de votação teriam prejudicado mais Lula".

Ele também considera que o petista tem experiência para governar com um Congresso Nacional hostil e afirma que, para unir o país, o desafio é isolar a extrema direita, cuja força ele calcula em torno de 15% do eleitorado.

"Eu queria chamar a atenção para duas coisas. A diferença em 2026 acabou sendo maior do que a de 2022. Em 2022 foi 1,8 ponto percentual, agora a diferença dobrou."

O que explica a virada inédita que o Lula conseguiu nesta eleição, após ter terminado atrás de Flávio no primeiro turno? Há três fatores fundamentais. O primeiro foi uma mudança pouco percebida que o Lula operou na campanha ainda na primeira quinzena de setembro, antes do primeiro turno. Ele passou a reconhecer que havia produtos caros nos mercados e começou a sinalizar que proibiria as bets. Com isso, ele mudou completamente a campanha, porque começou a dialogar com problemas presentes das camadas populares. Acho que esse fator foi pouco percebido porque as pessoas têm notado mais a mudança do primeiro para o segundo turno, que de fato aconteceu.

Essa mudança resultou em um conjunto de medidas que se estendeu até o reajuste do Bolsa Família, à PEC [proposta de emenda à Constituição ] que prevê o transporte gratuito nos fins de semana e, muito importante, a aprovação da mudança da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Isso dialogou com essas mobilizações, que são mobilizações jovens.

O segundo fator é a incrível mobilização popular. Pela minha memória, é a maior mobilização de esquerda, genericamente falando, que ocorreu no Brasil. As duas mobilizações na avenida Paulista são as maiores manifestações que a esquerda fez em São Paulo e possivelmente no Brasil. E são uma resposta, ainda que tardia, à grande manifestação da direita na véspera do impeachment da então presidente Dilma Rousseff [PT], que a Folha considerou a maior manifestação da cidade. Infelizmente, não vamos ter elementos comparativos, porque o Datafolha não fez a mesma mensuração, mas, de maneira impressionista, essas manifestações atuais equivaleram àquela. Esse talvez até tenha sido o fator decisivo, mas não posso comprovar, então falo em três.

O terceiro fator é essa incorporação da política digital por meio dessa estruturação que o deputado André Janones fez, que de fato é uma coisa nova no campo da esquerda. Aparentemente, ele conseguiu capilarizar essas duas mudanças anteriores que mencionei, que me parecem centrais.

Algumas das medidas que o sr. citou, como o reajuste do Bolsa Família, receberam críticas pelo caráter eleitoreiro. Existe, além disso, uma preocupação com o impacto nas contas públicas. Como o senhor vê essa situação? As medidas de fato ocorreram no momento em que a eleição estava sendo decidida, então isso foi o pano de fundo. E o custo que elas implicam vai incidir sobre o gasto público a partir do ano que vem, mas acho que há uma sobrevalorização do problema do déficit público. O governo tomou medidas no sentido de conter o déficit. Medidas até debatidas no âmbito da esquerda, que estão sinalizadas no arcabouço fiscal.

E acredito que o governo Lula tem sido suficientemente responsável do ponto de vista fiscal. Em última análise, essas medidas farão girar a economia e, portanto, aumentar a receita de impostos. Todas essas medidas vão significar maior poder aquisitivo para a população e farão com que a economia volte a girar, o que vai aumentar a receita.