No discurso da vitória , Luiz Inácio da Silva ( PT ) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.
Auspiciosa, a nota de autocrítica ainda está para se materializar como diretriz do anunciado novo enredo. A prometida mudança requer revisão de procedimentos, a começar pelo mais difícil: Lula contrariar a própria natureza, renunciar à autoexaltação e reconhecer na prática, além das palavras, que o sucesso da empreitada foi uma obra coletiva.
Indo ao encontro dos fatos, é possível constatar que Lula ganhou apesar de Lula. O governo mal avaliado foi o dele, o tom da campanha até a derrota no primeiro turno quem deu foi ele, bem como foram fruto de sua egolatria os vários equívocos que quase levaram à Presidência da República o Bolsonaro da vez .
Mérito dele, porém, ter aberto espaço a uma correção radical de rumos que levou a uma vitória muito mais ampla que o previsto no retrato das pesquisas.
Sair de uma desvantagem de (em números redondos) 2 milhões de votos para uma vantagem de mais de 4 milhões, com um ganho que ultrapassou 10 milhões de eleitores, é façanha para não se botar defeito.
A proeza demandou esforço, que foi correspondido por uma adesão popular cuja mobilização não se via há muito. Aqui cabe o lugar-comum: Lula é levado de volta à Presidência nos braços de parte significativa do povo.
A partir de agora, o leme está de novo nas mãos dele; para retribuir a confiança dos apoiadores e, sobretudo, ampliar seu campo de visão e atuação para os anseios de todos os brasileiros, sem distinção.