Entre parlamentares de oposição ao governo de Giorgia Meloni , existe há anos a suspeita de que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) possam ter tido tratamento privilegiado na tramitação do pedido de reconhecimento da cidadania por descendência na Embaixada da Itália em Brasília.
O uso do passaporte italiano no roteiro de fuga de Flávio ganhou destaque na imprensa italiana, em um momento em que são debatidos os efeitos da lei que, no ano passado, restringiu o acesso à cidadania para descendentes nascidos fora do país europeu .
No documento apresentado na tarde desta quarta-feira (28), Bonelli pede explicações aos ministérios de Relações Exteriores e do Interior sobre as datas e a modalidade com que os irmãos Bolsonaro obtiveram a cidadania. Ainda não há prazo para a resposta do governo, que ocorrerá no plenário da Câmara.
Segundo informações fornecidas anteriormente pelo governo Meloni, Flávio e Eduardo fizeram pedido para entrar na lista de espera para o reconhecimento da cidadania em Brasília em 2020. Em 2022, nove dias depois das eleições em que Jair saiu derrotado, eles estiveram na embaixada italiana para dar início à tramitação do pedido.
No ano passado, em outro pedido de respostas apresentado por Bonelli, dessa vez no âmbito da fuga da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), a subsecretária do Interior, Wanda Ferro, confirmou que Flávio e Eduardo obtiveram a cidadania em 2023, enquanto o documento de Carlos foi liberado em 2024. Jair Bolsonaro não tinha até aquele momento a cidadania.
Com a cidadania certificada, é possível fazer o pedido de documentos de identificação, incluindo o passaporte.
Bonelli menciona na sua interpelação que, no período em que Flávio fez o pedido de cidadania, as solicitações apresentadas nos consulados italianos do Brasil chegavam a demorar cerca de dez anos para serem processadas. Isso devido ao grande volume de descendentes italianos no país e à alta no interesse em obter o documento.
"Parece necessário verificar se os filhos do ex-presidente Bolsonaro foram convocados respeitando a ordem cronológica da lista de espera ou se foram beneficiados por tratamento preferencial em relação aos demais requerentes", escreve Bonelli.
Ele faz uma lista de perguntas aos ministérios, que inclui datas exatas de inscrição na lista de espera, de convocação e apresentação de documentos, além da posição dos irmãos Bolsonaro em comparação a outros requerentes. O deputado questiona se o governo pretende abrir uma investigação para apurar o caso.
Bonelli cita que Flávio é alvo de investigações no Brasil e lembra que Zambelli também usou o passaporte italiano em sua fuga. "O caso da ex-deputada, que depois da sua condenação no Brasil declarou que se sentia ‘intocável’ na Itália graças ao passaporte italiano, demonstra o risco de a cidadania italiana ser usada para subtrair-se da justiça do próprio país", diz.
Entre os líderes da coalizão de direita no poder, o vice-premiê Matteo Salvini é o mais próximo da família Bolsonaro. Ele havia parabenizado o senador pelo primeiro lugar no primeiro turno. Na segunda-feira (26), Meloni parabenizou em nota o presidente Lula ( PT ) pela reeleição.