Coube ao Brasil, cujo fundo conservador nunca deve ser subestimado, a proeza de frear, no segundo turno da eleição presidencial de 2026 , a onda reacionária que se espalhava pela América Latina. Se a próxima terça-feira (3) confirmar as pesquisas, Donald Trump perderá a maioria na Câmara e no Senado. Então, de Sul a Norte, a democracia no continente ganhará um tempo para articular alternativas ao autocratismo.
O busílis será conjugar os difíceis problemas políticos e econômicos, duas faces da mesma moeda, para chegar a um programa que atenda às amplas maiorias, isolando a extrema direita. Aqui, onde a barbárie é sempre um dado para a maioria da população, a tarefa é, necessariamente, dupla: defender a liberdade e conquistar o acesso do povo, no seu conjunto, aos benefícios da modernidade.
Mesmo sendo dispensável repetir, convém frisar que a extrema direita seguirá a sua viagem rumo ao modelo distópico que projeta e que a batalha vencida no último domingo (25) será uma de muitas que virão. O resultado do primeiro turno, quando o projeto bolsonarista ficou dois pontos percentuais acima do lulista , mesmo com um candidato fraco, isolado e cheio de acusações bastante plausíveis, mostra que Lula ( PT ) precisará orientar o quarto mandato no sentido da extensa mobilização que permitiu a sua vitória no final.
Convém, de maneira breve, observar alguns dados. Dos 47% de votos válidos em Flávio Bolsonaro ( PL ) em 4 de outubro, apenas um núcleo duro disposto a seguir a orientação do seu pai apertou 22 por razões ideológicas. Segundo um cálculo do Datafolha , durante o governo de Jair, o bolsonarismo raiz equivalia a cerca de 12% do eleitorado. Afastado do poder, condenado e preso por tentativa de golpe, é pouco provável que o ex-capitão tenha aumentado o contingente fiel ao seu clã.
Os demais escolheram a oposição por estarem insatisfeitos com o governo. O Datafolha fechado três dias antes daquele pleito indicava que 41% consideravam o governo ruim ou péssimo, contra 35% que o achavam bom ou ótimo. Eis a explicação, simples, para a diferença resultante no escrutínio inicial, que quase recoloca a democracia no pelourinho.
Estudos de comportamento eleitoral há muito verificam que o cidadão médio avalia um mandato, sobretudo, de acordo com o mercado laboral e os preços. A existência de empregos ou alternativas autônomas de trabalho, bem como a obtenção de renda capaz de suprir as necessidades da sua família, constituem os itens básicos levados em conta na hora de votar.
De acordo com as estatísticas disponíveis, o crescimento do PIB promovido por Lula 3 produziu um número de empregos satisfatório. A renda, contudo, que também aumentou, parece ter sido drenada por dois fatores ausentes nos governos Lula 1 e 2.
Houve, para começar, uma onda inflacionária mundial na saída da pandemia que foi agravada pelas guerras que se sucedem desde então. A inflação causou um persistente aumento do custo de vida, em particular dos alimentos. Sobre ele, no Brasil, houve um pico de endividamento, resultante de dívidas acumuladas a taxas de juros exorbitantes. A necessidade de exercer mais de uma atividade remunerada para pagar as contas se expandiu.
Ao aperto financeiro, se somou uma epidemia de bets que agravou a situação, já bastante difícil. Por isso, havia a sensação de que "estava na hora de mudar", carreando apoio a Flávio, que jogou parado até que, nos debates finais, foi obrigado a recuar sob a pressão de Lula. As dificuldades decorrentes do custo de vida têm se constituído em óbice para muitos governos ao redor do planeta, independentemente da cor ideológica. Trump deverá perder na semana que vem pelo mesmo motivo.
Em resumo, o preço da carne, que lembrava a promessa lulista de trazer a picanha com cerveja de volta para a mesa do trabalhador, o pico de inadimplência, que atingiu 84 milhões de pessoas em agosto , e a epidemia das bets — 30 milhões fizeram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026 — quase levam a democracia de roldão.
Como explicar a incrível virada ocorrida nas três semanas que separam o primeiro do segundo turno? A minha hipótese é que três fatores se interligaram para produzir a mudança que deixou a extrema direita local e internacional boquiaberta. De forma sucinta, aí vão.
Para começar, Lula percebeu, na primeira quinzena de setembro, que havia uma desconexão entre o modo pelo qual tinha estruturado a campanha e a realidade do eleitorado. Antes do primeiro turno, portanto, deu um freio de arrumação. Transformou o que era uma exposição burocrática de realizações em uma série vibrante de decisões.
A sexta-feira, 11 de setembro, uma noite fria e chuvosa de Porto Alegre, foi o momento em que o presidente, que havia adotado o uso do chapéu como marca registrada, reconheceu, em comício, que o café e a carne estavam caros.
Quarenta e oito horas depois, de volta a Brasília, em uma live com militantes, explicou que, na comparação com os tempos de Jair Bolsonaro , havia diminuído o ritmo em que os alimentos subiam de preço, mas outra coisa era fazê-los cair. "O fato concreto é que a gente não conseguiu reduzir o preço estratosférico que estava no governo passado", afirmou o chefe de Estado, tirando, simbolicamente, o chapéu para o eleitor.
No mês e meio seguinte, arregaçou as mangas e tomou, em média, uma resolução importante por semana. Evitou mexer diretamente nos preços, mas colocou à disposição da base da pirâmide social e dos chamados "pobres intermediários" uma série de benefícios compensatórios. O símbolo dessa postura foi a difícil decisão de banir as apostas em defesa da economia popular. Para tanto, abriu mão de arrecadação, comprou briga com empresas, clubes de futebol e mesmo apostadores contumazes.
O resultado foi que o choque do primeiro turno encontrou outro mandato em curso. O Bolsa Família havia sido reajustado em 15% . As bets, completamente proibidas. O Estado havia decidido comprar dívidas com dois a quatro anos de atraso, cobrando-as com deságio de até 90% ( Desenrola 3 ), e assinado uma proposta para que as canetas emagrecedoras fossem liberadas para uso no SUS (Sistema Único de Saúde).
O segundo fator foi que o movimento social percebeu a novidade, por vias nem sempre óbvias. Como gostava de dizer um antigo professor meu, correntes livres e subterrâneas do psiquismo coletivo se sintonizaram. Enquanto, em Brasília, os czares da campanha tentavam compreender o ocorrido, jovens estudantes e trabalhadores (desconfio que os dois ao mesmo tempo) começaram, de maneira espontânea, a encher as ruas do país como se tivessem entendido o sentido da mudança operada por Lula.
Salvo melhor juízo, Niterói foi onde tudo começou, nos dias em que Flávio se sentava em uma cadeira presidencial imaginária e iniciava a montagem do seu ministério. De lá, o movimento cruzou a baía de Guanabara e, em seguida, reapareceu no Rio de Janeiro. São Paulo respondeu, como em 2013, e as manifestações que pareciam dizer "nós não vamos entregar o nosso futuro à família Bolsonaro" pipocaram até culminar na avenida Paulista em 11 de outubro , um domingo, com uma multidão comparável ao 13 de março de 2016.
Depois de virada incrível, Lula terá que cumprir as promessas feitas à multidão da Paulista
[RESUMO] Três fatores devem ser considerados, sustenta o autor, para compreender a virada de Lula no segundo turno das eleições: o freio de arrumação na campanha que reconheceu as dificuldades econômicas do eleitorado, a tomada espontânea das ruas por jovens e