A maioria de nós que lê este jornal vive no Brasil e assiste à televisão brasileira desde que se entende por gente. Para quem é da minha geração: Globo , Jornal Nacional , novela das oito, futebol às quartas e aos domingos. Entre tantas outras imagens, acompanhamos nossas avós ligarem a televisão nas manhãs de domingo para assistir à missa.
Em outros canais, acompanhamos durante décadas Silvio Santos vender jogos de azar. À tarde, programas policiais —"porta-voz do bangue-bangue e da polícia central", como canta Roberto Silva— consagraram apresentadores, lançaram carreiras políticas e, há bastante tempo, preparam a audiência para os cultos cristãos que vêm a seguir.
Basta trocar de canal na televisão aberta para que a maioria deles esteja transmitindo algum culto cristão, seja ele católico ou evangélico. Na madrugada, idem. Há canais exclusivamente dedicados a isso. E, inspirada no intelectual negro Osmar Teixeira Gaspar , que dedicou sua carreira para pensar a exclusão de pessoas negras na televisão, pergunto —por que não há um único dedicado a religiões de matriz africana?
Será que as religiões de matriz africana não têm visão? Ou será que faltam meios materiais para tanto?
Em tese, em um país livre e democrático, não há problema nenhum em conceder meios de comunicação em massa para igrejas. Todavia, desde que o Estado zele pela laicidade e pelo pluralismo religioso, sem estimular desigualdades de qualquer natureza, sobretudo aquelas que já vêm de quase quatro séculos de escravidão.
Democratização das mídias com cem anos de atraso
Cem anos se passaram desde que o cientista escocês John Logie Baird apresentou publicamente, pela primeira vez, um sistema capaz de transmitir imagens em movimento, momento que é considerado um dos marcos fundadores da televisão. Desde então, uma pergunta segu