O resultado das urnas expressa uma rejeição à condução do governo, alimentada pelo custo de vida e pela guerra com o Irã . Não significa, porém, que os eleitores tenham condenado especificamente as ações de Trump no continente. Cuba e Venezuela , por exemplo, raramente ocupam o centro das preocupações do eleitorado nacional, embora mobilizem setores politicamente influentes, sobretudo na Flórida.
O novo Congresso poderá impor obstáculos à Casa Branca. Os democratas terão condições de investigar as operações militares no Caribe, os acordos petrolíferos com a Venezuela , as deportações e o apoio financeiro à Argentina de Javier Milei . Poderão questionar gastos, dificultar nomeações diplomáticas e tentar recuperar atribuições legislativas na política comercial.
Mas fiscalizar não é o mesmo que impedir. Trump conservará ampla autonomia em política externa, além do poder de veto. E a nova maioria democrata só assumirá em janeiro.
Há um paradoxo nessa situação. Como observa o analista James Bosworth, presidentes americanos que perdem o controle do Congresso podem voltar suas atenções para a política externa, onde encontram maior liberdade de ação. Portanto, um Trump enfraquecido dentro dos Estados Unidos não será necessariamente menos intervencionista fora deles.
As consequências, porém, não serão iguais para todos os países. Cuba constitui um caso particular. A pressão sobre Havana tem raízes profundas na política americana e conta com o apoio de setores organizados da comunidade cubano-americana. A derrota republicana não elimina esses interesses nem a influência de Marco Rubio na formulação da política regional.
Na Venezuela, as operações militares e os acordos sobre petróleo poderão enfrentar maior escrutínio. Isso não garante, entretanto, uma mudança de orientação da Casa Branca. A hipótese de uma intensificação das pressões continua aberta, assim como a possibilidade de que a fiscalização legislativa imponha limites efetivos.
Para Brasil e Argentina, as questões são diferentes. A revisão das tarifas comerciais poderá ganhar espaço no Congresso, enquanto o apoio de Washington a Milei ficará mais exposto a questionamentos. Nenhum desses movimentos, entretanto, pode ser dado como certo.
A derrota de Trump coincide ainda com dificuldades enfrentadas por alguns de seus aliados latino-americanos. No Paraguai, Santiago Peña, próximo ao presidente americano, anunciou sua renúncia em meio a uma grave crise bancária e sofreu impeachment . As causas são internas, mas o episódio acrescenta instabilidade ao cenário regional.
Há também o fator tempo. Trump continuará na Casa Branca até janeiro de 2029, e os governos latino-americanos já terão de considerar a aproximação de sua sucessão. Para aliados e adversários, a questão não será apenas como lidar com Washington hoje, mas quanto apostar numa política que poderá mudar dentro de dois anos.
A derrota eleitoral alterou a correlação de forças nos EUA, não os interesses americanos na América Latina. O Congresso poderá aumentar o custo político das intervenções, mas não suprimi-las por decreto. O que resta saber é se Trump, diante de uma sociedade preocupada sobretudo com seus próprios problemas, escolherá moderar sua ofensiva regional ou procurar nela uma demonstração de força.