Delegado demitido sob acusação de tortura e 'rinha de presos' é eleito deputado federal pelo PL

Um delegado de polícia que chegou a ser demitido do cargo e denunciado à Justiça sob a acusação de torturar presos, colocá-los para brigar e cobrar ingresso e de obrigá-los a construir uma academia para a empresa de sua família foi eleito d

Por Admin ·

Delegado demitido sob acusação de tortura e 'rinha de presos' é eleito deputado federal pelo PL

Ele assumirá a partir de fevereiro um mandato na Câmara dos Deputados . O delegado nega todas as acusações e rebate que não foi condenado.

Durante a campanha deste ano, Daniel Trindade foi preso por suspeita de compra de votos, numa operação da Polícia Federal que inicialmente apurava o suposto treinamento de uma milícia clandestina de indígenas para defender uma região de garimpo ilegal contra a atuação de órgãos de fiscalização ambiental. Ele foi solto após pagar R$ 10 mil de fiança e acabou eleito com 16 mil votos.

Em nota, Daniel Trindade afirmou que nunca sofreu condenação criminal, negou as acusações e disse que são fruto de disputas políticas que enfrentou no Amazonas e em Roraima.

"Ao longo de mais de uma década, meu nome foi associado a acusações, investigações e procedimentos judiciais que receberam ampla exposição pública. Entretanto, o que frequentemente não recebe o mesmo destaque são as decisões judiciais favoráveis, as absolvições e as inconsistências apontadas pela defesa", disse na nota, assinada também por seu advogado.

Trindade foi demitido do cargo de delegado de polícia em 2017, mas uma decisão judicial o reintegrou ao posto. Os juízes entenderam que ele não poderia ser punido por irregularidades em função que não era sua, a de cuidar de detentos, já que foi contratado como delegado.

Determinaram ainda que o governo pagasse a ele os salários retroativos como delegado e também como diretor de estabelecimento penal.

Atualmente, Trindade mantém o vínculo com a Polícia Civil do Amazonas, mas a corporação informou em nota que uma nova portaria foi expedida este ano para declarar ele reprovado no estágio probatório.

"O ato administrativo que formaliza o desligamento do servidor dos quadros da Polícia Civil já foi elaborado e aguarda publicação no Boletim Interno de Comunicação (BIC), etapa necessária para a produção de seus efeitos administrativos", afirmou a Polícia Civil do Amazonas.

Trindade respondeu que a nova tentativa de demissão "apresenta graves inconsistências jurídicas".

A expulsão depois revertida ocorreu por acusações de irregularidades cometidas como delegado de polícia em Juruá (AM), em 2015.

Conforme o Ministério Público, depoimentos de testemunhas ouvidas pela corregedoria da polícia apontam que ele "torturou e obrigou custodiados a edificarem uma academia, manteve relações sexuais com adolescentes e praticou abuso de autoridade".

Os atos em que ele acertava as mãos e pés de presos com um bastão eram gravados e acompanhados por pessoas de fora da polícia, segundo o MP.

Registros em vídeo foram divulgados nas redes sociais na época, exaltando a "punição aos criminosos". A denúncia afirma que pelo menos 11 adultos e três adolescentes que estavam sob custódia da polícia foram torturados por Trindade.

O Ministério Público também afirma em seu relatório que Trindade obrigou os presos a travarem "lutas extremamente violentas no interior da carceragem". As "rinhas" eram transmitidas nas redes sociais e havia também cobrança de ingresso para que as pessoas assistissem presencialmente.

Um mototaxista afirmou em depoimento que pagou R$ 4 para ver com a esposa e os filhos.

De acordo com depoimento de um capitão da Polícia Militar anexado ao processo, as lutas ocorriam aos fins de semana, para que os presos por desordem ou embriaguez "tomassem um corretivo dos presos que já estavam na carceragem".

Esse processo teve atrasos por recursos a tribunais superiores e dificuldade de ouvir as testemunhas, e até hoje não foi julgado em primeira instância.

Trindade disse em nota que as testemunhas não identificaram a sua participação nas supostas agressões e que "uma década de tramitação não transformou a acusação em condenação".

Ele ainda foi denunciado pelo Ministério Público por estupro de vulnerável num processo à parte, por supostamente manter relações sexuais com meninas de 12 e 14 anos. Essa ação correu em segredo de Justiça e foi arquivada por falta de provas, com ele sendo declarado inocente.

Trindade também é acusado de improbidade administrativa por ter supostamente obrigado presos e um adolescente a construírem uma academia de ginástica que tinha seu sogro como sócio.

Os trabalhos forçados teriam ocorrido sem pagamento, e o pai do então delegado vigiava a obra. Foram anexados depoimentos e fotos à ação judicial. Ele diz, em nota, que não houve exploração ilegal, que o processo está prescrito e tem nulidades processuais.

Por uma falha na Justiça Eleitoral, o estágio atual desses processos não foi de conhecimento dos eleitores de Roraima, já que as ações correm na Justiça do Amazonas e a certidão de habilitação eleitoral mostra apenas processos aos quais ele concorre em Roraima, estado pelo qual foi eleito.

Na campanha eleitoral deste ano, o futuro deputado foi alvo de ação da Polícia Federal por supostamente treinar uma milícia privada formada por indígenas para defender uma região de garimpo ilegal na Raposa Serra do Sol.

A investigação começou quando Ibama e a Polícia Rodoviária Federal foram atacados a tiros e perseguidos por motociclistas durante uma fiscalização.

Ele responde, em nota, que não organizou, treinou ou participou de milícia privada e que os cursos promovidos pelo Instituto Avançar tinham finalidade educacional e profissionalizante, com conteúdos como primeiros socorros, defesa pessoal e segurança preventiva.

Durante a busca e apreensão, a PF encontrou o que considerou indícios de compra de votos, com dinheiro em espécie e listas com nomes de eleitores. Ele foi preso e solto após pagar R$ 10 mil de fiança. Sobre as acusações, afirma que o dinheiro não possuía destinação eleitoral ilícita, que a polícia não comprovou compra de votos e que a lista era de controle de call center.

A única fonte de recursos declarada por ele à Justiça Eleitoral para a campanha para deputado é uma doação de R$ 800 mil do diretório nacional do PL, partido que lançou como candidato à Presidência Flávio Bolsonaro .

Em 2024, quando ele tentou se eleger prefeito de Cantá (RR), 90% dos recursos vieram do PL. Ele acabou derrotado naquela ocasião. O partido foi procurado segunda-feira (18) e não comentou.

Desde que foi eleito deputado, em 4 de outubro, Trindade passou a circular em Brasília e se reunir com alguns dos integrantes do partido, como o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o líder na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), para tratar de projetos relacionados a seu futuro mandato.

Antes, no entanto, ele já possuía registros em suas redes sociais com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que gravou vídeo para sua campanha a prefeito de Cantá (RR) em 2024 –quando o futuro deputado já respondia pelas acusações de maus-tratos aos presos.