A dinâmica desses programas favorece uma tática amplamente utilizada nesta era digital da política: a publicação de cortes. Os participantes extraem desses conteúdos trechos curtos que os beneficiam e os publicam em suas redes sociais.
Ao #Hashtag, Pavanato confirma o relato de Bruno Costa e diz que, além de gostar de debater, a participação nesses vídeos é parte da estratégia de gerar material para as redes sociais em múltiplos formatos. "Quem assiste a um debate mais aprofundado vai conhecer os conteúdos que leio e uso como referência, além do conhecimento que tenho para compartilhar. Isso faz com que as pessoas confiem mais em você, a ponto de depositarem o voto", diz.
O criador do canal Spectrum diz que o planejamento do canal para o período eleitoral previa uma quantidade maior de embates, mas a iniciativa esbarrou na falta de adesão de figuras, em especial de contraponto à direita. "A maioria dos candidatos, geralmente de esquerda, tinha muito medo de participar. Isso é muito curioso, pois as pessoas de direita queriam incessantemente fazer debates", afirma.
Há exceções na esquerda, como Jones Manoel ( PSOL ) e Elias Jabbour ( PCdoB ), que participaram do quadro "1 versus 20" no canal e foram eleitos deputados federais por Pernambuco e Rio de Janeiro , respectivamente.
No ano passado, os criadores do Spectrum estabeleceram a meta de consolidar o canal como uma referência em debates sérios sobre o Brasil até as eleições. Para eles, o objetivo já foi alcançado. "Conseguimos chegar num lugar onde conversamos com pessoas que gostam de assistir ao debate pelo debate, pelo conteúdo, e não só pelo entretenimento", conta Bruno.
Questionado sobre a possibilidade de o formato dar palco para discursos extremistas, Bruno afirma que muitos dos convidados já possuem audiências por conta própria. "Todas essas pessoas têm muito mais seguidores do que a gente. A questão é saber produzir debates com bons oponentes, que vão gerar um verdadeiro desafio e fazer com que aquela pessoa seja confrontada de fato."
Para Costa, a linha que separa a vida real do ambiente virtual está cada vez mais tênue, já que o consumo de internet se tornou constante. "Se você observar, muitos dos eleitos são ótimos produtores de conteúdo e focam muito a produção relacionada a políticas e pautas que defendem", diz. Porém, o sucesso não se resume à internet: "Não é só rede social. Tem a ver com o trabalho dessas pessoas nas suas bases. Mas se você não comunica isso nas redes, não adianta nada."
Isso fica evidente quando nem todos que participaram dos debates no canal tiveram o mesmo desempenho nas urnas. Um exemplo citado é o de Guto Zacarias, candidato a deputado federal pelo Missão, que mesmo no embate "1 conservador contra 20 ativistas LGBT", com mais de 1 milhão de visualizações apenas no YouTube, não conseguiu se eleger.
Agora eleito e com grande visibilidade, Pavanato afirma que vai priorizar figuras mais relevantes e outras formas de conteúdo, como confrontos em Brasília . "Eu já estava percebendo que, hoje, acabo promovendo mais as outras pessoas do que a mim mesmo com esses debates. Por isso, tenho que filtrar melhor as oportunidades."