Desde que assumiu a presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) defendeu três vezes a adoção de um sistema misto . Em abril de 2025, o modelo apareceu sem um diagnóstico claro; em novembro, virou blindagem contra o crime organizado; agora, é apresentado como resposta aos puxadores de votos ideológicos, como esta Folha escreveu em matéria de 28 de outubro . Gilberto Kassab , presidente do PSD, já defendia a mudança antes de 2026. Portanto, a preferência dos dois antecede o resultado das últimas eleições , embora os resultados deste ano possam ter engrossado o coro de apoio.
Muitos deputados ficaram insatisfeitos com a distribuição das cadeiras, que teria sido distorcida pelos puxadores de voto —que qualificamos como candidatos com votação correspondente a mais de duas vezes o quociente eleitoral — concentrados sobretudo no PL . Foram apenas sete no pleito de 2026; nas três eleições anteriores, não passaram de cinco.
Quase todos falam em adotar um sistema misto: uma combinação de disputa majoritária e proporcional. A promessa é obter o melhor de dois mundos: a proporcionalidade das listas e o vínculo local dos distritos. Não por acaso, a obra de referência de Matthew Shugart e Martin Wattenberg sobre o tema traz essa expressão no subtítulo, com um ponto de interrogação. A combinação pode entregar o melhor dos dois, mas também o pior dos dois, ou um monstro que nenhum deles produziria sozinho. O quadro que acompanha este artigo apresenta os principais modelos e experiências internacionais.
Quem acreditou na combinação virtuosa raramente ficou satisfeito. A Itália adotou um sistema misto em 1993, trocou-o em 2005, aprovou em 2015 outro que nunca chegou a ser usado e voltou a um misto em 2017, reformado novamente em 2026.
Na Alemanha , modelo dos reformistas, as cadeiras excedentes levaram o Tribunal Constitucional a derrubar a lei eleitoral em 2008 e em 2012, e o Bundestag chegou a 736 deputados antes de nova reforma, em 2023. No Lesoto e na Coreia do Sul, os partidos criaram legendas-satélite para driblar a compensação. São sistemas em reforma permanente, puxadinhos que pedem novos puxadinhos.
Há duas famílias principais dos sistemas eleitorais mistos . No modelo paralelo, usado no Japão e no México, distritos e listas são apurados separadamente e as cadeiras se somam, o que favorece o maior partido. No compensatório, da Alemanha, da Nova Zelândia e da Escócia, a votação partidária define o tamanho de cada bancada, e a lista completa o que os distritos não deram.
Outra escolha decisiva nos sistemas mistos é o número de votos. Com dois, o eleitor escolhe um candidato no distrito e, em separado, um partido para a lista, que pode ser outro, e os partidos precisam pedir voto para si. Com um só, o eleitor precisa da pessoa para chegar ao partido, e o partido fica refém do candidato.
Uma proposta atribuída ao deputado Glaustin da Fokus (Podemos-GO) propõe o chamado sistema federativo misto. Metade das cadeiras de cada estado iria aos candidatos mais votados no estado, sem distritos: é o "distritão", nome brasileiro dado ao voto único não transferível (SNTV, na sigla em inglês). A outra metade seria preenchida por listas fechadas, também conhecidas como pré-ordenadas. As cadeiras de lista seriam divididas pela votação de cada partido, descontados os votos de seus candidatos já eleitos, mecanismo conhecido como desconto.
Nenhuma democracia usa algo parecido, e a proposta ignora a experiência de quem chegou perto. Japão e Taiwan abandonaram o voto único não transferível depois de décadas de disputa entre candidatos do mesmo partido, campanhas caras e escândalos de corrupção . Na proposta, ainda informal, do Podemos, a campanha continuaria estadual, sem aproximação entre representantes e representado e sem redução de custos de campanhas. Qual seria o benefício para a democracia brasileira com esta reforma?
O desconto ainda pune o partido que concentra votos em quem se elege, e a experiência italiana mostra que os partidos aprendem rápido a driblá-lo.
A proposta também parte de uma crítica discutível à lista aberta. No sistema atual, embora o eleitor escolha um nome, seu voto é um voto na lista do partido e a escolha do nome tem a função de ordenar a lista. O candidato muito votado que ajuda a eleger colegas é uma consequência prevista da regra proporcional.
Debate sobre sistema eleitoral misto ignora experiência de quem já tentou
A reforma eleitoral é visita frequente no Congresso. Em 2015 e 2017, a Câmara dos Deputados votou projeto do chamado distritão, que elege os mais votados e ignora os partidos. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões. Em 2021, voltou a circular e foi descart