Quem entra ganhando só tem o trabalho de não estragar. Corrobora o resultado, agradece à torcida e vai pra casa. Mas quem consegue reverter uma derrota ganha grito, choro, palavrão, abraço de estranhos. É emoção dobrada, uma espécie de redenção. Como se tivesse tocado num milagre.
A virada é exigente: só se vira o jogo quando o precipício se apresenta como a opção mais provável. Não basta um contratempo, é preciso ter flertado intimamente com o fracasso .
O privilégio pertence a quem olhou para o placar e já começou a pensar no ônibus de volta. Aí uma mistura de fé, desespero, raiva, teimosia e paixão toma conta e tira a razão de cena —a razão, nessas horas, só atrapalha. A esperança, que nunca foi boa em matemática, continua na arquibancada, rouca, pedindo mais um minuto.
É o que Gilberto Gil chama de ser feliz por um triz. Sentir aquela felicidade de escapar por pouco, de passar raspando, de perder até o verniz.
Existem as grandes reviravoltas da história, para o bem e para o mal. E existem as individuais, as miúdas, que parecem banais.
As minhas micro-viradas começam às seis da manhã, no instante em que o despertador espanta o silêncio. O sono joga em casa, entra aquecido e já começa ganhando de goleada. Penso em desistir. Sempre penso. Às vezes desisto e entrego o jogo por WO.
Mas há manhãs em que eu ponho os pés no chão frio, pego a bola e, num lance meio assim sem querer, empato. Não venço. Empato. O que já é uma vitória àquela hora. E a vitória que minutos atrás era impossível passa a ser só questão de escovar os dentes e puxar da pilha de pendências o que estava emperrado.
Tem as conversas difíceis que a gente vai adiando porque já conhece todas as razões para não dar certo. A gente pensa em desistir, já antecipando a defesa, as ofensas e o discurso da derrota. Até que a esperança rouca resolve falar. E a virada acontece, seja um "não dá mais" ou um "estamos juntos". E ambos podem ser uma vitória.
A idade é a virada inevitável. Ou aceitamos como definitivos os resultados que os outros apitam para nós ou viramos o jogo criando as nossas próprias regras. Aos 45 anos (e 44 minutos do segundo tempo dos meus joelhos), resolvi encarar 42 quilômetros. Me inscrevi na primeira maratona . Não consultei o cardiologista nem o ortopedista. Não contei pra ninguém. Treinei de olhos fechados. Fingi não saber que era impossível terminar. E cheguei.
Há, por certo, alguma perversidade no prazer da virada. Ninguém pede para passar 90 minutos perdendo, sofrer, roer as unhas até a carne para, só então, experimentar a felicidade. Se pudéssemos escolher, imagino que a maioria de nós pediria uma vitória tranquila, com tempo suficiente para chegar em casa antes do trânsito.
Mas a vitória tranquila tem um defeito: ela não se arrisca. Ela também é esquecível. Não vira história. Ninguém conta para os filhos, nem sequer se lembra, do dia em que tudo saiu como previsto.
Vencer de virada é mais gostoso? Não sei.
Só sei que quem experimenta esse gostinho entende o deleite que é ser feliz por um triz.
De virada é mais gostoso?
O futebol inventou isso primeiro: virar o jogo é melhor do que entrar em campo ganhando.