Imagine dirigir pelas ruas de Vice City ao som de Michael Jackson, fugir da polícia ouvindo rock ou simplesmente atravessar Los Santos enquanto um locutor faz piadas sobre o comportamento dos moradores. Em Grand Theft Auto, a música nunca foi apenas um acompanhamento: ela faz parte da identidade dos jogos.
Desde o primeiro GTA, lançado em 1997, a Rockstar e suas antecessoras na franquia exploraram a ideia de transformar veículos em pequenas estações de rádio. Com o passar dos anos, esse recurso evoluiu de trilhas relativamente simples para uma das marcas registradas da série.
Agora, com GTA 6 levando os jogadores de volta a Vice City, a expectativa em torno das rádios é quase tão grande quanto a curiosidade sobre o próprio mapa.
De GTA 1 a Vice City: quando a música virou parte do mundo
Imagem: TudoCelular/ Reprodução
No primeiro Grand Theft Auto, as músicas eram organizadas em faixas que simulavam transmissões de rádio. A ideia era simples, mas ajudava a criar a sensação de que as cidades continuavam existindo independentemente das ações do jogador.
A evolução veio com GTA III, em 2001, que apresentou estações com identidades próprias, locutores, anúncios fictícios e programas de humor. A música deixou de ser apenas uma trilha sonora para se tornar parte da construção daquele universo.
Mas foi GTA: Vice City, lançado em 2002, que transformou o conceito em fenômeno cultural.
Ambientado em uma versão fictícia de Miami nos anos 1980, o jogo reuniu artistas como Michael Jackson, Bryan Adams e Electric Light Orchestra, distribuídos em estações dedicadas a diferentes estilos musicais.
A Flash FM apostava no pop, a V-Rock reunia hard rock e heavy metal, enquanto a Fever 105 explorava funk e soul. Já a Emotion 98.3 era conhecida pelas baladas românticas.
O resultado era uma experiência que ajudava a contar a história da cidade sem depender de diálogos ou missões.
Por que as rádios de GTA funcionam tão bem?
Em entrevista à NME, a pesquisadora Kiri Miller, da Universidade Brown, explicou que as músicas licenciadas de Vice City foram fundamentais para construir a ambientação do jogo.
Além de apresentar uma época específica, as rádios davam aos jogadores a possibilidade de escolher a atmosfera de cada momento.
Uma perseguição policial podia ganhar intensidade com uma música acelerada. Já uma viagem longa pelo mapa podia se transformar em um momento de descanso ao som de uma estação mais tranquila.
Essa liberdade também resolveu um problema comum aos jogos de mundo aberto: tornar interessantes os deslocamentos entre uma missão e outra.
Outro elemento importante é o humor. Comerciais absurdos, apresentadores exagerados e programas de entrevistas fictícios ajudam a construir a sátira social característica de Grand Theft Auto.
De San Andreas a GTA 6: a rádio como identidade cultural
Imagem: Epic Games/ Divulgação
A Rockstar continuou expandindo essa fórmula nos jogos seguintes.
GTA: San Andreas utilizou hip-hop, funk, rock e country para representar diferentes aspectos da Califórnia fictícia dos anos 1990. GTA IV apostou na diversidade musical de Liberty City, enquanto GTA V trouxe uma seleção ainda mais ampla, incluindo estações apresentadas por artistas reais.
Essa curadoria transformou os jogos em uma forma de descoberta musical. Para muitos jogadores, ouvir determinada canção é suficiente para lembrar imediatamente de uma cidade, personagem ou missão.
Com GTA 6, ambientado em uma Leonida inspirada na Flórida contemporânea, artistas como Bad Bunny representam o tipo de sonoridade que poderia combinar com a nova Vice City. Até que exista uma confirmação oficial, porém, sua presença nas rádios deve ser tratada como possibilidade, não como parte anunciada da trilha sonora.
O que já está consolidado é a importância da música para a franquia. Em Grand Theft Auto, escolher uma estação nunca foi apenas decidir o que ouvir.
É escolher como viver aquela cidade. E talvez seja por isso que, décadas depois, tantas pessoas ainda se lembrem das músicas de Vice City antes mesmo de recordar suas missões.