22/10/2026 03h30 Atualizado 22/10/2026 08h55
Quando o clamor popular fala alto, não há político que mantenha suas convicções — ao menos não neste segundo turno das eleições presidenciais. Seja numa inflexão na posição histórica contra a redução da maioridade penal, seja no voto a favor de mudanças na escala de trabalho após meses a fio de críticas à proposta, tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) viram-se obrigados a protagonizar guinadas no discurso em busca de votos, em movimentos evidenciados no vocabulário de cada um.
Na cabeça dos candidatos: Da segurança à ameaça dos EUA, análise com IA em 850 mil palavras revela focos de Flávio e Lula Duas escolas: Lula aposta em PAC para construir creches, enquanto Flávio Bolsonaro propõe vouchers para famílias
No segundo dia da série “Na cabeça dos candidatos”, que esmiuça, com auxílio de inteligência artificial, 850 mil palavras ditas ou escritas pelo petista e pelo senador ao longo do ano, O GLOBO mostra como as cambalhotas retóricas intensificaram-se no segundo turno, em meio àquela que promete ser a mais apertada corrida pelo Planalto da história. Ao inverter sinais em diferentes temas, os dois rivais miram alcançar o eleitorado do outro — tática que, no entanto, nem sempre é eficaz.
— Esse é um pleito muito mobilizado pelas rejeições, muito mais do que por proposta ou posicionamento, por isso vejo pouco potencial nestas guinadas. E as pessoas até enxergam essas viradas como eleitoreiras, mas não ao ponto de modificar a sua intenção de voto em um processo de curto prazo — avalia o estrategista Paulo Loiola, fundador da agência de marketing político Base.Lab.
Para a produção da série, foram reunidos todos os discursos oficiais dos dois políticos — como presidente, no caso de Lula, e no plenário do Senado, no caso de Flávio —, o conteúdo das principais entrevistas e as postagens da dupla nas redes sociais X e Instagram em 2026. São, ao todo, 2,5 mil registros entre 1º de janeiro e 16 de outubro, a sexta-feira da semana passada, que foram analisados com apoio da IA.
A principal mudança de posição de Lula foi em relação à diminuição da idade mínima para responsabilização por crimes de 18 para 16 anos, historicamente rechaçada pelo PT e pela esquerda brasileira de modo geral. O presidente, por exemplo, não havia citado especificamente a expressão “maioridade penal” nenhuma vez no ano em todas as fontes analisadas pelo GLOBO até se declarar a favor da medida na última sexta-feira, em entrevista à TV Globo:
— Eu, enquanto cidadão brasileiro, (para) todo e qualquer crime hediondo, sou favorável a diminuir — afirmou.
Dias antes da sabatina, uma pesquisa Quaest mostrou que 80% dos eleitores apoiam a redução. Se Lula havia ignorado o assunto até então, Flávio bateu na tecla da diminuição da maioridade penal em diversas ocasiões desde janeiro. Para Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV EAESP, a direita vem conseguindo pautar a esquerda em vários países do mundo, o que se repetiu no debate em questão.
— O PT busca fazer com que a sociedade civil imagine que, entre perdas e danos, é pior um governo do bolsonarismo. Essa guinada tem um peso diante do que o partido sempre defendeu, é claro, mas o Lula precisou olhar para o eleitorado que, nesse momento, defende a medida — explica.
Flávio percorreu trajeto inverso na escala 6x1. Defensor do que via como uma flexibilização de jornada em detrimento da proposta encampada por Lula, o parlamentar só falou nominalmente sobre o tema uma única vez até agosto, conforme a base de dados do GLOBO — que compreende sobretudo canais em que o candidato toca nos assuntos por vontade própria, não necessariamente sendo confrontado. Ao anunciar, às vésperas da aprovação da PEC pelo Senado, que mudara de posição e votaria pelo fim da 6x1, ele se justificou dizendo agir de acordo com o desejo da “maioria dos trabalhadores brasileiros”.
— É algo totalmente eleitoreiro, mas que pode ser bem visto pelo eleitor independente. Como quem era contra a mudança já é majoritariamente antipetista e pró-Flávio, ele também não corre o risco de perder esse voto — diz Loiola.
Como o GLOBO mostrou ontem, o Judiciário é um dos eixos principais do discurso de Flávio, com foco especial no Supremo Tribunal Federal ( STF ). A Corte ocupa um terço das falas do candidato neste universo, ante 2,7% no caso de Lula. O tema concentra 211 menções a cada 100 mil palavras do bolsonarista, índice quase dez vezes maior do que as 22 citações do petista.
O postulante à reeleição, contudo, teve de acelerar nessa direção. Pressionado pela relação próxima entre o ministro Alexandre de Moraes , alvo frequente do bolsonarismo, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, o presidente modulou o discurso, passando a criticar com mais regularidade o Supremo e defendendo uma reforma do Judiciário, admitindo até rever os critérios para indicação de magistrados à Corte máxima do país.
O resultado é expresso na matemática: entre setembro e outubro, Lula tratou mais do assunto do que na soma dos três bimestres anteriores. Ainda assim, Flávio dedicou, proporcionalmente, quatro vezes mais espaço ao STF do que o rival no recorte em questão.
Por outro lado, Lula fala duas vezes mais do que o adversário sobre violência contra a mulher e direitos femininos. A análise com IA revela ainda divergências no conteúdo das declarações dos dois candidatos: 74% do discurso do petista nesta seara enfatizam prevenção e proteção, enquanto quase metade da retórica do senador envolve punição, prisão imediata e castração química.
Ambos, porém, reduziram o ritmo das referências ao tema na reta final da disputa na comparação com outros períodos do ano. Embora frise que a abordagem concentrada no endurecimento penal ignora as “formas de sexismo e misoginia que alimentam o problema”, Flavia Biroli, professora de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), acredita que o paradoxo entre a ampliação recente da legislação protetiva e o patamar elevado no número de ocorrências abre flancos para diferentes abordagens na campanha:
— Avançamos nas leis, mas seguimos com índices muito altos de violência e de feminicídio, especificamente. Então, para quem já está no governo durante esses anos, pode haver essa identificação com a adoção de políticas que são respostas concretas, mas tem também o fato de que precisamos ser realistas sobre a dificuldade com o objetivo central, que é diminuir os casos.
Se baixou as referências às mulheres na comparação com o primeiro semestre, Lula atingiu o pico de menções às bets entre setembro e outubro, em concomitância com o anúncio de proibição das plataformas a uma semana do primeiro turno. O presidente já sinalizava o veto ao menos desde abril, mas a análise indica que ele endurece a posição conforme a eleição se aproxima, trocando cada vez mais a defesa da regulação pela extinção total.
Já Flávio tratou consideravelmente menos da questão. Ao abordá-la, focou no endividamento das famílias, optando por repreender algumas modalidades do jogo — em setembro, por exemplo, afirmou que, em um governo seu, não haveria “cassino online, nem tigrinho”, sem citar as apostas esportivas. Diante da medida de Lula, o senador mais do que dobrou, entre setembro e outubro, a frequência somada de menções em todo o ano, passando a investir em se referir ao rival como “pai do tigrinho”.
Para a produção da base de dados, só foram levados em conta vídeos em que o próprio candidato está falando. O trabalho de catalogação com uso de IA teve supervisão humana de repórteres e editores.
Para a transcrição das entrevistas, foi utilizado um sistema que distingue interlocutores de uma conversa pela voz treinada para identificar apenas o candidato. Foi empregada ainda uma taxa de semelhança conservadora para minimizar eventual erro do modelo, bem como atribuições incorretas.
(Colaboraram Beatriz Leão, Esther Gama, João Marcelo Barreto, Joziane Barbosa, Kaio Magalhães, Lívia Nani e Patrick Chaia; *estagiários sob supervisão de Luã Marinatto)
Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.