Da derrota para Lula à fuga a Miami: saída de Flávio Bolsonaro do Brasil teve jatinho à espera, despiste de Eduardo e contato com governo Trump

28/10/2026 14h02 Atualizado 28/10/2026 16h00 Flávio Bolsonaro deixou a sala principal, onde a apuração da eleição era transmitida em um telão, e foi para um ambiente mais restrito assim que a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Por Admin ·

Da derrota para Lula à fuga a Miami: saída de Flávio Bolsonaro do Brasil teve jatinho à espera, despiste de Eduardo e contato com governo Trump

28/10/2026 14h02 Atualizado 28/10/2026 16h00

Flávio Bolsonaro deixou a sala principal, onde a apuração da eleição era transmitida em um telão, e foi para um ambiente mais restrito assim que a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se consolidou no domingo. Aliados que acompanhavam o resultado ao seu lado, no Lago Sul, área nobre de Brasília, se dividiram sobre o tom a ser adotado no pronunciamento que faria aos eleitores e o que fazer a partir dos dias seguintes. O parlamentar também mantinha contato por telefone e mensagem com interlocutores que não estavam ali, como o irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, e o influenciador e empresário Paulo Figueiredo. Eles dois, que moram nos Estados Unidos, defendiam que Flávio deixasse o país. O temor era de prisão.

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— Na noite da derrota, a minha sugestão (a Flávio) foi: "Pegue um avião e saia daí agora". Não quis, não quis — afirmou Figueiredo em uma transmissão ao vivo na tarde de terça-feira.

Manifestação semelhante havia sido feita por Eduardo dias antes da eleição, quando recomendou que Flávio saísse do Brasil em caso de derrota. Os dois mantêm contato frequente com autoridades do governo de Donald Trump, o que tornava natural a ida aos Estados Unidos.

Uma das ideias analisadas era que, em um primeiro momento, a mulher de Flávio, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas saíssem do Brasil. O senador não mostrava, naquele momento, estar convencido da ideia. O grupo que defendia a permanência lembrava, inclusive, que a PF havia pedido em meados de 2025 a prisão do tenente-coronel Mauro Cid depois que sua mulher e filhas deixaram o país — a solicitação chegou a ser atendida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas foi revogada na sequência.

Flávio deixou a casa pouco depois das 22h e, num pronunciamento, respondeu apenas a uma das perguntas que pairavam. Não reconheceu a vitória de Lula e disse que entraria com uma ação na Justiça para anular a eleição, com o argumento de que a extensão do horário de votação determinada pelo ministro do STF Cristiano Zanin havia sido ilegal.

Foi a primeira derrota interna do grupo que inclui o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o senador Rogério Marinho (PL-RN), a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a advogada Maria Claudia Bucchianeri. Essa ala defendia um telefonema para o presidente, a admissão da derrota e uma mensagem clara de que Flávio lideraria a oposição, com o aval dos 59,8 milhões de votos que recebeu.

No dia seguinte pela manhã, Flávio percorreu de carro os cinco quilômetros que separam sua casa da residência do ex-presidente Jair Bolsonaro, em um bairro próximo. Conversaram sobre a derrota e, na saída, o senador recebeu a informação que mudaria o rumo de suas decisões dali para frente.

Policiais federais o aguardavam para intimá-lo de uma decisão judicial assinada na noite anterior pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. A PF via risco de fuga no curso das investigações que ligam Flávio ao advogado Willer Tomaz sob a suspeita de lavagem de dinheiro e pediu ao Supremo a apreensão dos passaportes do parlamentar, o que foi atendido. Tomaz está fora do país desde agosto e, na visão da polícia, Flávio poderia seguir o mesmo caminho. Os agentes avisaram que Flávio tinha até terça-feira, às 11h, para entregar os documentos.

Uma das primeiras reações do senador foi telefonar para o advogado Otto Medeiros, seu amigo e doador da campanha. Os dois combinaram de se encontrar no escritório de Otto, no Lago Sul. Ali, acompanhados do criminalista Tracy Reinaldet, analisaram a intimação e a decisão de Moraes. Os três almoçaram no próprio escritório, onde Flávio permaneceria durante boa parte da tarde.

A preocupação judicial logo dividiria espaço com a política. Entre 14h e 16h, chegaram ao local Tarcísio, Rogério Marinho, Tereza Cristina, Bucchianeri, o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), o advogado Vicente Santini, amigo de Flávio, e a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques. O assunto principal era como reagir à derrota para Lula sem aprofundar a crise.

Marinho e Bucchianeri resistiam à ideia de insistir na anulação da eleição, anunciada por Flávio na noite anterior. A advogada argumentou que a iniciativa não prosperaria e propôs outro caminho: contestar a vitória de Lula por meio de uma ação para pedir a cassação da chapa adversária. O senador concordou com a mudança de estratégia. Ficou decidido que ele faria um vídeo falando sobre os planos — a mensagem teve que ser gravada mais de uma vez, até que o tom ficasse adequado ao que havia sido combinado.

— Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar — disse Flávio no vídeo publicado nas redes sociais segunda-feira à tarde.

Parecia uma vitória do grupo de Tarcísio e Marinho, mas outra ala do bolsonarismo pensava diferente. De acordo com a colunista Bela Megale, do GLOBO, uma rota de fuga já estava sendo preparada há semanas. Havia a possibilidade inclusive de incluir no roteiro a Venezuela, país sob influência direta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde a prisão do ditador Nicolás Maduro no início do ano. A Venezuela acabou fora dos planos, mas as horas seguintes mostrariam que a aliança do bolsonarismo com o trumpismo e a ingerência dos EUA na direita latinoamericana seriam decisivas.

Flávio seguiu para casa após deixar o escritório, por volta de 16h30 de segunda-feira. Menos de uma hora depois de chegar, recebeu a visita do advogado Frederick Wassef, que abrigou Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e alvo do caso da “rachadinha”. Na ocasião, o ex-auxiliar estava sendo procurado e foi preso em um imóvel de Wassef. Procurado, o advogado não revelou o teor da conversa.

A hipótese de fuga ganhou força na manhã de terça-feira, momento em que a imprensa argentina revelou que havia um jatinho privado à espera de Flávio no aeroporto de Puerto Iguazú, que faz fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná. A informação desencadeou uma correria de aliados. Um deles, integrante da campanha, procurou a mulher de Flávio para saber como ele estava. Recebeu como resposta, às 7h30, que o senador estava em casa, ainda deitado na cama. Meia hora depois, Marinho procurou Flávio. O candidato derrotado disse ao coordenador da campanha que estava “esfriando a cabeça” e que os dois conversariam mais tarde. Questionado se ainda permanecia no Brasil, não respondeu.

O silêncio se estendeu aos demais contatos. Mensagens enviadas até 8h50 apareciam com os sinais no WhatsApp que indicam a entrega. Depois disso, a confirmação não apareceria mais. O fim do prazo para apresentar os passaportes ampliou a apreensão de aliados, já que Flávio não entregou os documentos, cancelados diante do descumprimento da ordem, e já estava incomunicável. Os policiais legislativos que fazem a segurança dele não receberam a agenda do dia e também procuraram informações, sem sucesso.

O mistério fez o PL convocar uma reunião de emergência. A possibilidade cada vez mais concreta de Flávio deixar o país provocava desconforto entre dirigentes que haviam defendido sua candidatura e agora tentavam organizar a atuação da legenda no Congresso. Marinho afirmou que não havia sido consultado sobre a viagem e disse esperar que o senador continuasse exercendo um papel de liderança na oposição.

As críticas também retomaram uma comparação com Jair Bolsonaro. Em conversas reservadas, integrantes da direita questionavam a conveniência de Flávio deixar o país depois de uma eleição em que havia se apresentado como herdeiro político do pai. Para esses interlocutores, a decisão contrastava com a postura do ex-presidente. Bolsonaro viajou aos Estados Unidos e não passou a faixa para Lula, mas voltou ao Brasil após três meses. Na mesma live em que disse ter recomendado Flávio a fugir, Paulo Figueiredo contou que discutiu com o ex-presidente quando ele contou que voltaria e o chamou de “burro”. Ficaram meses sem se falar.

Ao mesmo tempo em que o paradeiro de Flávio era desconhecido para parte dos aliados com quem compartilhou a tentativa de ser presidente, uma movimentação paralela ajudava a encobrir o trajeto real do senador. Aliados ligados à campanha, à cúpula do PL e a Eduardo Bolsonaro começaram a transmitir a jornalistas versões falsas sobre seus deslocamentos. Primeiro, informaram que Flávio já havia deixado o Brasil. Depois, passaram a assegurar que ele estava nos Estados Unidos.

De acordo com a colunista Bela Megale, Eduardo Bolsonaro foi figura central na desinformação. Na tarde de terça-feira, o ex-policial militar André Porciúncula, aliado do ex-deputado, disse a jornalistas que o senador estava em um voo para Miami. Horas depois, confirmou que a aeronave havia chegado na cidade e que Eduardo já estava com Flávio e a família do irmão.

A operação alcançou também as redes sociais. O deputado federal e senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ) deu como “confirmada” a ida do senador aos Estados Unidos, alegando que a saída evitaria que ele fosse usado como moeda de troca para barrar o impeachment de Alexandre de Moraes. O deputado federal Maurício Marcon (PL-RS) afirmou que Flávio havia conseguido deixar o país, classificou a viagem como um exílio e disse que ele continuaria liderando a direita do exterior. Ambos apagaram posteriormente as publicações.

O deputado federal Rodolfo Nogueira (PL-MS) foi além e anunciou que Flávio já havia chegado aos Estados Unidos. A deputada e senadora eleita Caroline de Toni (PL-SC) afirmou que o senador conseguira deixar o Brasil, mas correria o risco de ser preso caso retornasse. O deputado federal Junio Amaral (PL-MG) declarou que ele estava em segurança, longe do que chamou de “ditadura brasileira”. Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) questionou a segurança dos opositores do governo ao comentar a suposta saída de Flávio a pé do país. Nikolas apagou a publicação original e voltou a divulgá-la, desta vez acrescentando a ressalva de que a viagem teria ocorrido “supostamente”. A informação sobre a presença nos EUA também foi publicada pelo advogado Simón Levy, ligado a Trump.

O mistério só começou a ser desfeito na madrugada desta quarta-feira. Às 2h, o Departamento de Migração da Argentina revelou nas redes sociais que Flávio havia entrado no país às 22h50 cruzando a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina. Ele estava acompanhado da mulher e das duas filhas. Às 23h30, a família embarcou em um jato particular no aeroporto da cidade argentina, com destino a Guayaquil, no Equador. A aeronave estava aguardando em solo desde a noite do dia anterior. Com o passaporte brasileiro cancelado, Flávio apresentou o documento italiano para sair da Argentina.

O roteiro engloba dois países sob influência direta de Trump: a Argentina, com Javier Milei, e o Equador, com Daniel Noboa. A PF suspeita que houve apoio do governo argentino na fuga. A aeronave decolou às 0h22 de quarta-feira, pousou em Guayaquil às 5h46 e voltou a partir às 6h22, desta vez rumo ao aeroporto executivo de Opa Locka, em Miami. O jato Gulfstream pousou por volta das 10h20. Áudios da torre de controle mostram a preocupação com a aproximação de helicópteros que faziam a cobertura ao vivo de chegada. O senador e os familiares deixaram o local em um carro preto que os buscou na pista. Homens vestidos de preto faziam a escolta. A expectativa é que ele faça um pronunciamento na quinta-feira.

Em paralelo, no Brasil, a oposição já se reorganiza. Enquanto o destino de Flávio ainda era desconhecido, Tarcísio, nome no páreo para a corrida presidencial de 2030, publicou um vídeo com agradecimentos ao aliado e um recado:

— A eleição passou (...) Reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos. Agora é hora de unidade, de uma oposição vigilante que cobre responsabilidade fiscal, proponha aquilo que melhora a vida das pessoas e fiscalize de perto quem governa pelos próximos quatro anos.

Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.