O caso de Margarida, que pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado por questão de segurança, expõe uma dimensão do domínio territorial atribuído ao CV (Comando Vermelho) no país, que vem transformando o lugar onde as pessoas vivem em fonte de renda ilícita e instrumento de coerção.
Além do tráfico de drogas, investigações apontam práticas como expulsar moradores , tomar imóveis, cobrar pagamentos de comerciantes e restringir a atuação de empresas.
Levantamento da Folha identificou 16 operações relacionadas à facção entre janeiro e outubro, com participação de Ministérios Públicos, em cidades de 13 estados: Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Outras duas foram conduzidas pela polícia, em Rondônia e Ceará.
As investigações apuram crimes como expulsão de moradores, extorsão de comerciantes e provedores de internet e controle ilegal de serviços.
Relatórios da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que o CV está presente em 26 estados da Federação . O Rio Grande do Sul é a única exceção.
O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) afirma manter iniciativas de integração entre forças de segurança para enfrentar organizações criminosas com atuação interestadual , como redes especializadas e forças-tarefa.
No Ceará, a investigação sobre o assassinato de um casal de comerciantes em Fortaleza aponta para a cobrança de taxas para permitir que trabalhadores mantenham suas atividades.
Wallace Goes de Oliveira, 46, e Roseany Lima de Oliveira, 48, foram mortos em 28 de agosto, em Mondubim, na periferia da capital, onde mantinham um trailer de lanches. Eles deixaram três filhos.
Em setembro, o Ministério Público cearense denunciou três homens por extorquir comerciantes do bairro. Segundo a acusação, quem se recusasse a pagar ficaria sujeito à violência , e o assassinato teria servido de punição e aviso aos demais trabalhadores.
Investigações no interior também apuram cobranças ilegais no comércio de água. Em junho, a Polícia Civil fez uma operação contra integrantes do CV em Sobral e Cariré, a 235 km de Fortaleza.
Na mesma região, em outubro, uma ação cumpriu oito mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em Meruoca, Alcântaras e Sobral. A polícia pediu o bloqueio de R$ 15 milhões em bens e ativos dos investigados.
O setor de telecomunicações é alvo no estado. Na madrugada de 16 de outubro, suspeitos picharam e depredaram fachadas e portões de provedores de internet em Alcântaras e exigiram que deixassem o município em 24 horas, sob ameaça de incêndio.
A Secretaria de Segurança informou que cem suspeitos de envolvimento em ataques a provedores de internet haviam sido capturados no Ceará desde julho de 2025. Outras 1.631 pessoas investigadas por integrar organizações criminosas foram capturadas no estado entre janeiro e setembro de 2026, em flagrante ou por mandado.
No estado, o avanço do CV alterou a configuração da disputa entre facções. Reportagem da Folha publicada em janeiro deste ano descreveu a expansão do grupo sobre áreas antes dominadas pelos GDE (Guardiões do Estado), facção local que se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro) para tentar conter o rival. A aliança, porém, não conseguiu reverter o avanço do CV na Grande Fortaleza.