CV amplia ações de controle sobre moradia, comércio e serviços com ameaça e extorsão pelo país

Margarida, 56, teve dez minutos para colocar uma vida inteira em três sacolas plásticas. Em agosto, uma motocicleta parou diante de sua casa, em Bayeux, na Grande João Pessoa. Dois homens armados ordenaram que ela deixasse o imóvel com os t

Por Admin ·

CV amplia ações de controle sobre moradia, comércio e serviços com ameaça e extorsão pelo país

O caso de Margarida, que pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado por questão de segurança, expõe uma dimensão do domínio territorial atribuído ao CV (Comando Vermelho) no país, que vem transformando o lugar onde as pessoas vivem em fonte de renda ilícita e instrumento de coerção.

Além do tráfico de drogas, investigações apontam práticas como expulsar moradores , tomar imóveis, cobrar pagamentos de comerciantes e restringir a atuação de empresas.

Levantamento da Folha identificou 16 operações relacionadas à facção entre janeiro e outubro, com participação de Ministérios Públicos, em cidades de 13 estados: Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Outras duas foram conduzidas pela polícia, em Rondônia e Ceará.

As investigações apuram crimes como expulsão de moradores, extorsão de comerciantes e provedores de internet e controle ilegal de serviços.

Relatórios da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que o CV está presente em 26 estados da Federação . O Rio Grande do Sul é a única exceção.

O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) afirma manter iniciativas de integração entre forças de segurança para enfrentar organizações criminosas com atuação interestadual , como redes especializadas e forças-tarefa.

No Ceará, a investigação sobre o assassinato de um casal de comerciantes em Fortaleza aponta para a cobrança de taxas para permitir que trabalhadores mantenham suas atividades.

Wallace Goes de Oliveira, 46, e Roseany Lima de Oliveira, 48, foram mortos em 28 de agosto, em Mondubim, na periferia da capital, onde mantinham um trailer de lanches. Eles deixaram três filhos.

Em setembro, o Ministério Público cearense denunciou três homens por extorquir comerciantes do bairro. Segundo a acusação, quem se recusasse a pagar ficaria sujeito à violência , e o assassinato teria servido de punição e aviso aos demais trabalhadores.

Investigações no interior também apuram cobranças ilegais no comércio de água. Em junho, a Polícia Civil fez uma operação contra integrantes do CV em Sobral e Cariré, a 235 km de Fortaleza.

Na mesma região, em outubro, uma ação cumpriu oito mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em Meruoca, Alcântaras e Sobral. A polícia pediu o bloqueio de R$ 15 milhões em bens e ativos dos investigados.

O setor de telecomunicações é alvo no estado. Na madrugada de 16 de outubro, suspeitos picharam e depredaram fachadas e portões de provedores de internet em Alcântaras e exigiram que deixassem o município em 24 horas, sob ameaça de incêndio.

A Secretaria de Segurança informou que cem suspeitos de envolvimento em ataques a provedores de internet haviam sido capturados no Ceará desde julho de 2025. Outras 1.631 pessoas investigadas por integrar organizações criminosas foram capturadas no estado entre janeiro e setembro de 2026, em flagrante ou por mandado.

No estado, o avanço do CV alterou a configuração da disputa entre facções. Reportagem da Folha publicada em janeiro deste ano descreveu a expansão do grupo sobre áreas antes dominadas pelos GDE (Guardiões do Estado), facção local que se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro) para tentar conter o rival. A aliança, porém, não conseguiu reverter o avanço do CV na Grande Fortaleza.