A maior aposta dos anfitriões está numa nova meta de atingir 35% de eletrificação da economia global até 2035 —ou seja, ampliar o uso da eletricidade em atividades que atualmente dependem de outras fontes de energia, principalmente combustíveis fósseis. Entre as medidas estão, por exemplo, a substituição de veículos a combustão e de fogões a gás por alternativas elétricas.
Um acordo sobre esse objetivo vem sendo desenhado nos últimos meses no âmbito da chamada Agenda de Ação, que está sob responsabilidade da Turquia e do ministro de Meio Ambiente do país, Murat Kurum, chefe da COP31 . Paralelamente às negociações diplomáticas, a programação envolve outros entes, como o setor privado, governos estaduais e prefeituras.
Também farão parte dessa agenda assuntos como oceanos, segurança alimentar, transição para energia limpa e, principalmente, gestão de resíduos. Diferentemente dos acordos negociados, porém, as medidas adotadas neste âmbito são voluntárias e não têm força de lei.
A Turquia vê a COP31 como uma oportunidade para se posicionar como mediador na diplomacia climática. A Austrália, bloqueadora histórica de medidas mais ousadas para corte de emissões de carbono, quer agora se projetar como líder climática .
Em termos de negociações formais, são esperadas sobretudo decisões para pôr em prática acordos já fechados. "A mais importante é sobre o formato do mecanismo de transição justa", diz o coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima , Claudio Angelo .
Essa ferramenta, criada na COP30 , tem o objetivo de ajudar de forma prática a descarbonizar a economia sem deixar para trás os mais vulneráveis e dependentes de fósseis. O contorno do mecanismo foi elaborado em negociações diplomáticas em junho, porém ainda há divergências sobre aspectos importantes, como se estará vinculado à disponibilização de recursos financeiros.
Também estará na agenda de negociação o chamado Programa de Trabalho em Financiamento, o único espaço para debater o financiamento climático vindo de fontes públicas.
O evento ocorre um ano depois da cúpula climática de Belém (PA) e marca o encerramento da presidência brasileira do evento. Na última semana, ainda na chefia, houve, por exemplo, a publicação dos mapas globais para a transição dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento.
Os documentos foram elaborados de forma voluntária pelo Brasil após o fim dos combustíveis fósseis ter ficado fora do acordo final da COP de 2025. A eventual adoção dos planos por cada país é voluntária, mas há expectativa de que os textos sejam ao menos citados em um documento que vem sendo elaborado pela Austrália, a chamada decisão de capa.
O ministro de Mudança Climática e Energia australiano, Chris Bowen, presidente das negociações da COP31, anunciou que o texto deve tratar de assuntos como a adaptação a eventos climáticos extremos e a iminência do "overshoot" , como é chamada a ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C de aquecimento global, estabelecido pelo Acordo de Paris.
Além dos documentos lançados nos últimos dias, o Brasil chega à COP deste ano com o menor desmatamento já registrado e com o registro de queda nas emissões de gases de efeito estufa pelo terceiro ano consecutivo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participará da cúpula climática —sua chegada ao país está prevista para terça (10). Outros nomes confirmados do governo brasileiro até o momento são os ministros João Paulo Capobianco (Meio Ambiente), Eloy Terena (Povos Indígenas), Guilherme Boulos (Secretaria-geral) e Alexandre Padilha (Saúde).
O país vive a contradição de reduzir suas emissões vindas do desmate ao mesmo tempo em que a Petrobras abre uma nova fronteira de exploração de petróleo na Foz do Amazonas.
Ainda assim, há expectativa de que durante a visita de Lula seja divulgado o plano brasileiro para abrir mão da energia suja de forma progressiva. Também especula-se a possibilidade de ser anunciado um novo aporte no TFFF , fundo global para florestas lançado pelo governo federal no ano passado.
"Um dos avanços mais importantes que podemos ter em Antália é a consolidação do TFFF", afirma a diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, Maria Netto. "Esse instrumento pode mudar a forma como o mundo financia a conservação das florestas, criando uma fonte de recursos de longo prazo para manter a floresta em pé e beneficiar diretamente povos indígenas e comunidades tradicionais."
A delegação brasileira deve ser a segunda maior da COP31, perdendo só para os turcos, segundo estimativas do Itamaraty . Nas negociações, os diplomatas do Brasil devem priorizar a ampliação do financiamento dos países ricos às ações de combate e adaptação à mudança climática em nações em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, deve ser mantida a posição brasileira de se opor a mecanismos de regulação do comércio internacional com base na pegada de carbono dos produtos, como a taxa adotada pela União Europeia. Assim como outras nações emergentes, o país defende que essas são medidas unilaterais de restrição disfarçadas de preocupação climática.
O estande do Brasil na chamada Zona Azul, área restrita da conferência, receberá 147 eventos relacionados a ações práticas de enfrentamento à mudança do clima, divididos em dois auditórios.
Segundo o governo federal, o auditório Belém será dedicado a discussões sobre temas relevantes para a sociedade brasileira, conectando experiências nacionais ao contexto global.
O auditório Mutirão Global, por sua vez, terá programação voltada à Agenda de Ação, focado em medidas de implementação do combate à mudança do clima.