O boom de investimentos em data centers, puxados pela inteligência artificial (IA), vem impulsionando exportações e importações, mas, dessa forma, está mascarando os desafios que o sistema multilateral enfrenta, os maiores em seus 80 anos de existência, afirmou nesta terça-feira a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala.
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No início do mês, a OMC praticamente dobrou sua projeção de crescimento do comércio exterior este ano, para uma alta de 3,9%, ante a estimativa anterior de avanço de 1,9%. Já a projeção de crescimento de 2027 passou para 4,1%, acima dos 2,6% previstos antes, segundo o relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado no último dia 8.
A surpresa veio do fato de que as estimativas anteriores da OMC estavam marcadas pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, deflagrada em março. O conflito atingiu em cheio o comércio de petróleo e combustíveis, já que 20% do transporte da matéria-prima passava pelo Estreito de Ormuz, que acabou fechado por ataques da reação iraniana.
Servidores, semicondutores e placas de memória
Por um lado, exportações e importações de petróleo não caíram tanto no agregado mundial, porque houve um aumento de vendas de fornecedores de fora do Oriente Médio, como o Brasil. Por outro, o comércio de componentes usados em data centers — como servidores, semicondutores e placas de memória — seguiu de vento em popa, puxando a alta de 3,5% nas trocas de mercadorias no primeiro semestre do ano, já superando as expectativas.
— Acho que o crescimento está mascarando um pouco os desafios nos outros setores. Desse modo, os problemas decorrentes das tarifas (o tarifaço aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump), das guerras no Mar Negro (entre a Rússia e a Ucrânia, após a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022) ou no Estreito de Ormuz estão sendo mascarados por essa tendência muito positiva da IA — disse Okonjo-Iweala, numa entrevista a jornalistas na sede da OMC, em Genebra.
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Segundo o relatório do início do mês da OMC, bens usados na infraestrutura de IA responderam por 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre — o comércio desses produtos aumentou 67% em relação a igual período do ano anterior, acelerando ainda mais a rápida expansão observada em 2024 e 2025.
Embora o crescimento do comércio global acima do previsto inicialmente seja uma boa notícia em meio ao desafio criado pelo tarifaço de Trump e, mais recentemente, pela guerra no Irã, Okonjo-Iweala alertou que o boom de IA tem seus problemas.
Os dois principais são a concentração desse comércio em poucos fornecedores e compradores e a sustentabilidade, ao longo do tempo, do atual ritmo de investimentos em data centers e infraestrutura para IA.
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— Quando decompomos os números, vemos uma concentração dos benefícios do comércio de IA em duas regiões: América do Norte e Leste da Ásia. E, na América do Norte, trata-se, principalmente, dos EUA. Logo, o resto do mundo não está tão incluído nos benefícios desse comércio — afirmou a diretora-geral da OMC. — Então é bom, mas a questão é como tornar esse comércio mais inclusivo e como garantir que seja sustentável.
Segundo Coleman Nee, chefe de projeções da equipe de economistas da OMC, há muita incerteza sobre a estimativa de avanço de 4,1% no comércio global em 2027. A projeção assume que a guerra no Irã terminará.
— Há um alto grau de incerteza associada a essa estimativa, não apenas por causa do conflito no Oriente Médio, mas também porque não se sabe se o ritmo de investimentos em IA pode se manter — afirmou Nee.
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O economista chamou a atenção para o fato de que o boom da IA chegou a quebrar o padrão recente de correlação entre o comércio global e o crescimento da economia mundial.
Até a crise financeira internacional de 2008, as trocas comerciais cresciam a um ritmo duas vezes mais rápido do que a economia. Desde então, ambas taxas de crescimento se igualaram. Neste ano, o comércio crescerá mais do que a economia, frisou Nee.
As turbulências no comércio global ocorrem num momento em que a OMC está em xeque. Criado em 1995, o organismo multilateral do comércio está parado por causa dos EUA. Desde o primeiro governo Trump, os americanos estão bloqueando a indicação de juízes para o Órgão de Apelação, instância máxima da OMC. Sem membros, o Órgão de Apelação fica impedido de exercer sua função, que é julgar disputas comerciais entre os membros da OMC, uma das principais funções da entidade.
No segundo governo, iniciado em janeiro do ano passado, com o lançamento do tarifaço contra praticamente todos os países, Trump dobrou a aposta contra a OMC, enquanto Okonjo-Iweala vem negando que o organismo multilateral esteja paralisado ou tenha caído na irrelevância.
Segundo seu relatório anual, divulgado em setembro, a OMC apresentou um estudo estimando que a economia global poderá chegar a 2050 com um Produto Interno Bruto (PIB, o valor de todos os serviços e produtos produzidos na economia) agregado 6,9% abaixo do nível que atingiria na projeção base de crescimento até lá, se prevalecerem apenas acordos comerciais bilaterais entre os países.
O jornalista viajou como participante do Programa de Intercâmbio para Jornalistas da OMC e da Konrad Adenauer Stiftung (KAS)