28/10/2026 10h28 Atualizado 28/10/2026 10h41
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya é um dos nomes ventilados para assumir a possível nova pasta do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva , o Ministério da Segurança Pública, uma promessa do presidente para ampliar a atuação do governo federal no combate ao crime organizado.
Integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, Gakiya tem mais de duas décadas de atuação no combate ao crime organizado. Defensores do seu nome apontam que a escolha mostraria que Lula está disposto a dar uma resposta forte às facções criminosas.
Conhecido por sua atuação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), Gakiya não foi sondado diretamente para o posto — soube pela imprensa que seu nome é um dos cogitados. Ao GLOBO, o promotor afirmou que seria uma “honra” assumir o ministério.
— Se vier formalmente, será uma honra e certamente vou aceitar — disse.
Entre aliados de Lula, também são considerados nomes como Rui Costa e Camilo Santana, ambos ex-governadores da Bahia e do Ceará, respectivamente, por terem um discurso mais duro de combate à criminalidade dentro do PT e estarem próximos ao presidente.
A criação do Ministério da Segurança Pública é uma promessa antiga de Lula, que já cogitou a pasta exclusiva para segurança em 2022, mas não implementou a medida. Sua viabilização depende da aprovação da PEC da Segurança no Senado, projeto que é uma das prioridades do governo para ser apreciada até o final do ano, que estabelece novas funções ao governo federal para gestão da segurança pública. A partir disso, também seria discutido um orçamento específico para a pasta. A área da segurança pública, deste modo, seria desmembrada do Ministério da Justiça, que se tornaria uma pasta independente.
Gakiya é considerado o maior especialista em combate ao PCC no país. Em 2019, enquanto o governo de São Paulo hesitava por medo de uma reprise do terror dos atentados de 2006, Gakiya decidiu agir sozinho para isolar a cúpula da facção no sistema penitenciário federal. Sem apoio formal do governador ou do procurador-geral, protocolou o pedido de transferência de Marcola e outros 21 líderes. Um ato que ele mesmo classifica como seu “decreto irreversível de morte”.
Mais recentemente, tornou público um áudio em que a autoridade máxima do PCC chamava um comparsa de "psicopata", episódio que acabou por provocar um racha sem precedentes na cúpula do bando.
Com mais de uma dezena de planos de morte contra ele, Gakiya anda diariamente acompanhado por um séquito de seguranças, tem curso de tiro e carro blindado. Hoje, sua escolta rivaliza com a de governadores e presidentes. Perto de se aposentar, já declarou que não vê outro caminho para ele que não ir embora do Brasil. Por aqui, a legislação do país não lhe assegura, por exemplo, a manutenção de sua segurança depois de deixar o cargo.
Gakiya experimentou a escolta policial ainda em 2005, depois de os chefes do PCC o decretarem à morte pela primeira vez. A situação piorou em 2018, quando foi alvo de nova ordem de assassinato. Naquele ano, a polícia apreendeu duas cartas cifradas na saída da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, onde estavam detidos os chefes da facção. Atribuídas à cúpula do PCC, as mensagens sugeriam que os bandidos já haviam levantado a ficha de Gakiya, a quem se referiam como o “frango japonês”.
Gakiya entrou para o Ministério Público em 20 de dezembro de 1991, um dia antes de completar 25 anos, um “presente de aniversário”. No começo da carreira, a iminência da morte o apavorava tanto que ele passou a carregar em seu carro a fotografia de um de seus algozes, para tentar reconhecê-lo na rua.
Durante 20 anos à frente das comarcas de Presidente Bernardes e Presidente Venceslau, assistiu ao rápido controle do PCC nas cadeias paulistas. Foi convidado para assumir o Gaeco em 2008, onde se tornou peça chave do sistema penitenciário. Já chegou a sugerir à Secretaria de Administração Penitenciária para transferir 40 presos da noite para o dia para o sistema “não virar”, gíria para rebeliões. O reconhecimento o levou, em janeiro de 2017, a uma reunião com o presidente Michel Temer no auge da crise penitenciária.
Durante a eleição deste ano, chegou a ser convidado pelo candidato do PSD à presidência, Ronaldo Caiado, para assumir o Ministério da Segurança. Em resposta, Gakiya afirmou na ocasião que se sentiu 'lisonjeado' mas que não aceitaria para não perder a aposentadoria.
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