Hershman, que trabalha em uma clínica de saúde pública em Nampa, Idaho, não deveria fornecer seu número particular. Mas ela o compartilha com alguns pacientes que sabe que não têm a quem mais recorrer.
Sophia Perez, de 28 anos, cuja família não tem plano de saúde , falava com a voz assustada. Seu marido, John, estava soldando quando sentiu uma ardência no globo ocular, contou à Hershman. Será que uma lasca de metal havia atingido o olho? Eles não tinham condições de pagar uma ida ao pronto-socorro de um hospital.
Hershman fez perguntas minuciosas e conseguiu encaixá-lo na agenda lotada da clínica naquele sábado.
A Full Circle Health, onde Hershman exerce a medicina de família, há muito tempo funciona como uma rede de proteção de último recurso no sistema de saúde dos Estados Unidos . Ela integra uma das 1.400 redes conhecidas como centros de saúde qualificados pelo governo federal, com milhares de unidades que recebem recursos federais para atender pacientes independentemente de sua capacidade de pagamento.
Agora, o número de casos atendidos está aumentando, ao mesmo tempo que a receita cai. Com a escalada dos cortes no Medicaid e a disparada dos custos dos planos de saúde do Obamacare, médicos e orientadores da clínica estão recorrendo a medidas cada vez mais extremas para viabilizar o atendimento de pessoas com problemas médicos complexos que não têm seguro ou contam com cobertura insuficiente.
Hershman e seus colegas vêm passando horas prestando atendimento sem remuneração, enviando orientações por e-mail e telefonando fora do expediente. Eles procuram medicamentos mais baratos, embora às vezes menos eficazes, e passam semanas ajustando as doses para torná-los tão eficientes quanto possível. Negociam com especialistas para aceitarem pacientes e se oferecem para realizar por conta própria os exames preparatórios e o acompanhamento.