Venha quem vier, acredite no brasileiro. Eu só conseguia pensar nisso desde que esta Folha , às vésperas desta eleição presidencial, sugeriu que eu escrevesse neste espaço sobre as perspectivas do setor para os próximos quatro anos.
Fiquei entusiasmado com a ideia, já que vivo e penso sobre o assunto desde que, décadas atrás, coloquei uma mochila nas costas e saí por este mundo. Lugar de fala que fala, não é isso? Ao mesmo tempo, me dei conta de que o convite era para explorar o patinho feio de qualquer eleição presidencial, aqui no Brasil e alhures. Que eleitor, a não ser que tenha lido o plano de governo dos candidatos, sabe o que cada um deles pensa em fazer pelo turismo? Quando olhamos os desafios que nosso próximo governante tem pela frente, em educação, saúde, segurança, corrupção, para citar apenas algumas áreas mais mencionadas nas campanhas, o turismo mal aparece. Uma injustiça com um setor que representa, nos cálculos mais otimistas, 8% do nosso PIB. Se este dado te surpreendeu positivamente, peço perdão pelo balde de água fria: na Tailândia, o turismo representa 20% do PIB. Em Portugal, um país com uma população equivalente à metade da cidade de São Paulo, o número é 16%. Outros países que investiram no turismo têm números parecidos, o que coloca o Brasil numa retaguarda revoltante. A revolta, claro, é proporcional às possibilidades turísticas que poderíamos explorar mais.
Nos últimos quatro anos tivemos um belo impulso nas viagens, tanto internamente (responsabilidade do Ministério de Turismo), quanto internacionalmente (Embratur). Números significativos trouxeram sim algum alívio ao setor. Depois de uma pandemia e uma gestão em que a melhor qualificação do então ministro do Turismo era a de que ele tocava bem uma sanfona, esses resultados recentes são um alívio. Porém, ainda engatinhamos neste crescimento. Não há uma solução mágica que resolva todos os obstáculos para o turismo crescer no Brasil. Mas sabemos que infraestrutura hoteleira e de serviços, além da malha aérea são pontos cruciais. Tanto quanto a construção de uma imagem do Brasil como um país seguro para o turista estrangeiro, nosso calcanhar de Aquiles. No entanto, essas são questões que precisam de um fôlego maior do que os quatro anos de um mandato presidencial. Qualquer presidente que tomar uma iniciativa neste sentido só vai ver seu esforço frutificar daqui a 10, 15 anos.
Não citei Portugal e Tailândia lá em cima à toa. Conheço bem os dois países e sei que passaram por transformações no seu turismo que remontam aos anos 1990, ou antes. A Coreia do Sul (12% do PIB) é um exemplo mais recente, com projetos não menos ambiciosos. Que má sorte a do Brasil que não tem gente pensando nisso a longo prazo, você pode pensar. Eu prefiro ser otimista. E por isso volto à ideia que abriu esta coluna e que não me sai da cabeça nos últimos dias: acredite no brasileiro. Mais do que tudo, somos nós, com nossa simpatia e hospitalidade —sem falar da nossa vocação para sermos felizes— que, no final das contas, ganhamos o coração do turista. Qualquer política que quiser realmente virar o jogo do turismo no Brasil só tem a ganhar se passar por esse filtro: nossa gente.