A cobertura da megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, a mais letal do Brasil, não terminou no final de outubro do ano passado. Os desdobramentos seguem importantes, afinal, há centenas de histórias a serem contadas, a começar pelas dos 122 mortos e dos 89 presos.
Foi o que pensei em abril deste ano, quando decidi revisitar a lista dos flagrantes. "Será que tem alguma mulher presa?", pensei à época. E tinha: apenas uma entre 88 homens. Consegui acessar o processo e, para minha surpresa, tratava-se de uma prisão por associação ao tráfico baseada apenas na versão dos policiais.
Em setembro, voltei à história, a primeira contada na série "Elas não esquecem", publicada no final de outubro, e que dá voz a três mulheres afetadas pela operação.
Ao reler o processo, encontrei o nome do advogado de Gabriela Cristina Elias de Jesus, uma jovem de 26 anos, mãe de duas crianças, e entrei em contato para uma entrevista. O encontro aconteceu num escritório no Cachambi, na Zona Norte do Rio, com Gabriela ainda grávida de nove meses do segundo filho — ele nasceu duas semanas depois. Até então eu desconhecia a condição dela, e não pude deixar de pensar na coragem que ela teve para sair da Penha num mototáxi até o local onde nos encontraríamos, mesmo com a possibilidade de o bebê nascer a qualquer momento. Ela realmente precisava falar.
Levou um tempo para ela se sentir confortável e compartilhar melhor como foi, na perspectiva dela, o 28 de outubro de 2025. Ela foi presa em flagrante porque abriu uma live no Instagram mostrando policiais civis no portão da casa onde estava com vizinhas.
Os agentes interpretaram a situação como uma colaboração dela com o tráfico, já que criminosos, por meio do vídeo, poderiam descobrir a localização da guarnição.
Leia a matéria original: ' A operação acabou, mas fiquei na comunidade. Eu vivo o risco', diz única mulher presa na megaoperação no Alemão e na Penha
Gabriela ficou presa dois dias até ser solta provisoriamente na audiência de custódia. Atualmente, ela responde ao processo, ainda sem data de julgamento, em liberdade. O celular dela, motivo da prisão, foi apreendido, mas não chegou a ser apresentado em delegacia. Além disso, o advogado dela questionou como os policiais podiam assegurar que havia traficantes entre os seguidores de Gabriela.
Após a entrevista, percebi que, ao invés de uma única reportagem sobre o caso, a história de mulheres afetadas pela megaoperação poderia ganhar espaço num formato de série. E a ideia foi abraçada pela Rio, editoria em que trabalho. Em outubro de 2025, eu já havia acompanhado a busca pelos corpos na mata da Vacaria, onde ocorreu a maior parte das mortes na Operação Contenção.