Como uma fada madrinha, Marina Klink tem o dom de fazer as coisas acontecerem

A vida de Marina Bandeira Klink, como o próprio nome anuncia, estava, de alguma forma, predestinada ao mar. Nascida em Moema, na única rua asfaltada do bairro da zona sul paulistana, se lembra do bonde na av. Ibirapuera e dos cavalos no cór

Por Admin ·

Como uma fada madrinha, Marina Klink tem o dom de fazer as coisas acontecerem

Aos nove anos aprendeu a velejar na represa de Guarapiranga . Nas regatas, não pensava em ganhar medalha, gostava do trajeto, de conhecer pessoas no caminho. "A vela é um esporte solidário, mesmo se estando sozinho."

Ainda criança, pensava em fazer biologia marinha. Adorava insetos, tinha uma coleção enorme, catalogada e organizada em caixas. Um dia, seu irmão, sem autorização, levou a coleção à feira de ciências. Borboletas, escorpiões e outras preciosidades foram vandalizadas e as caixas voltaram vazias para casa. O trauma foi profundo, a ponto de ela escolher outro caminho profissional.

Cursou primário na escola pública, ginásio no Mackenzie e comunicação na Faap . Seu pai trabalhava no centro e ela pegava carona ouvindo Gil Gomes no rádio e o famoso refrão que empurrava muita gente para fora da cama na época: "Vambora, vambora, tá na hora, vambora". Sempre perdia o final da novela, pois descia do carro antes de acabar.

Em 1985, Amyr Klink tinha recém-chegado da sua travessia e Marina trabalhava com eventos na Mikson. Um de seus clientes, Johnson and Johnson, sugeriu convidar "o maluco que tinha atravessado o oceano a remo" para uma palestra. Encontrou o contato de Amyr na lista e ele topou fazer, cobrando um módico cachê.

Marina disse que enviaria a passagem, mas ele preferia ir de carro. Convidou-o para almoçar com o cliente, ele disse que comeria um pastel no caminho. Ofereceu pernoite no hotel, ele avisou que faria um bate e volta de Paraty.

Quando chegou o dia, não tinha ideia se ele ia aparecer. Na hora marcada, ele encostou o carro cheio de lama na porta do hotel, pediu um microfone, um copo d’água e ela teve certeza de que ia ser um fiasco. Foi um sucesso e, diante do pouco trabalho que ele tinha dado, passou a indicá-lo a todos os clientes.

Trabalharam, antes de namorar. Na era Collor , ficaram dois anos sem se falar, quando ele passou 642 dias no mar, a bordo do Paraty 1. Marina estava na Itália , trabalhando numa emissora de TV.

Em 1991, se reencontraram no salão do automóvel. Ela visitando clientes na GM, ele na Ford, patrocinadora de seu projeto sobre os faróis da costa.

Casaram-se em 1993 e ela sugeriu que ele fizesse uma volta ao mundo pela Antártida , roteiro que o faria navegar todas as latitudes e longitudes possíveis do planeta e que ele concretizaria em 1998. Pergunto como é escolher um parceiro de vida que passa tanto tempo longe. "Tenho total segurança de dizer que o Amyr é um cara extraordinário e é desse cara que eu gostei."

Era o início da internet de discar e a localização de Amyr ficava sujeita à boa vontade da empresa do rastreador via satélite, que mudava o ângulo sem avisar. Com as recém-nascidas Tamara e Laura em casa, passou por situações apavorantes, sem saber onde o marido estava. Mas nunca esperou ele voltar para tocar a vida. Quando chegou dessa viagem, por exemplo, ela tinha vendido a casa e comprado outra.

Paraty, 2005, algumas voltas ao mundo depois, ela esperava ele voltar de uma longa viagem. Nina, a terceira filha, já tinha cinco anos. "Foi a virada de chave. Ele voltou e eu disse: próximo verão nós vamos com você, tá na hora das suas filhas verem o lugar que mais amamos no mundo." E o que ele disse?, pergunto. "Ele disse não, Antártida não é lugar de mulher e criança. Todos foram contra, mas eu estava decidida."

Marina tinha ido para a Antártida em 1994, num navio russo. Num bote, uma baleia-jubarte se aproximou, perto a ponto de ela sentir seu cheiro e temperatura. Foi um encontro único e ali soube que voltaria outras vezes.

No ano seguinte partiram. Ela levou as lições da escola e nesses dois meses obrigou as filhas a escrever um diário: podia ser texto ou desenho. Tinham que registrar o dia. A princípio, não queriam, preferiam brincar com pinguins. "Tem dias que você abre o diário e as três fizeram o mesmo desenho porque colaram uma da outra."

Com um guia "Lonely Planet", aprenderam juntas sobre a biologia polar, enquanto Marina fotografava. Um dia, Amyr disse que tinham coisas mais urgentes a fazer no barco, que era inútil fotografar. Ela se ofendeu e, da provocação, repensou a vida. Era referência no mercado de eventos há décadas e decidiu mudar. Passou a se dedicar à fotografia de natureza, organizou o diário das meninas, as fotos e começou a treiná-las para falar em público.

Começaram falando sobre os bichos da viagem para os amigos da escola. A partir daí, criou o roteiro de uma palestra e o livro "Férias na Antártica". Colocou suas fotos nele e me diz, rindo, que acabou provando para Amyr que não só as fotos eram úteis para ela, como também para a família e para quem nunca foi à Antártida.

Levou as filhas para falar em mais de 200 escolas, pois sabia que era uma oportunidade de formação. Colocar crianças falando para outras crianças sobre a importância da preservação da natureza era algo único.

Vieram convites para outras viagens, livros, exposições. E como foi sair dos bastidores para uma vida pública? Ela ri, diz que não mudou muito, por mais que faça, continua sendo a mulher do Amyr. "Agora pior, sou a mãe da Tamara, nem sei mais o que sou." Mas ela sabe, sim, sabe da sua importância nas conquistas da família. "Sempre olhei o tamanho da encrenca e disse: vamos lá."

Na pandemia começou a pesquisar a história da família e se tornou uma exímia genealogista. São mais de 3.000 registros. Às vezes, numa viagem de férias, corre no cemitério local atrás de uma certidão de óbito que está faltando. Não deixa de ser uma coleção, comento, como a de seus insetos.

Obstinada, há décadas tenta realizar o filme sobre o livro "Cem Dias Entre o Céu e o Mar". Demorou tanto que Amyr dizia que era melhor esperar ele morrer. Mas ela não desistiu. "Cem Dias" foi dirigido por Carlos Saldanha e acaba de ser lançado. Amyr pôde vê-lo nos cinemas, inclusive faz uma participação como ator, de chorar de lindo. Marina tem esse dom, uma coisa meio "fada madrinha", como ela mesma diz, de fazer as coisas acontecerem.