Como uma bandeira pirata de anime se tornou símbolo de protestos da geração Z

Não é difícil entender a premissa de " One Piece ", hoje uma das franquias japonesas mais longevas e populares no mundo , com gibis, animações e série na Netflix . Há uma elite no governo que esbanja luxos e comete crimes sem nunca sofrer p

Por Admin ·

Como uma bandeira pirata de anime se tornou símbolo de protestos da geração Z

Essa mensagem de resistência foi abraçada pela geração Z , que vem se manifestando ao redor do mundo contra governos e sistemas que consideram opressores erguendo o símbolo pirata de "One Piece".

No ano passado, a bandeirola da tripulação de Luffy esteve nas ruas do Nepal, do Marrocos e da Indonésia . No último mês, rodou o Ocidente em atos puxados pela juventude, sendo avistada na França, Espanha, Albânia, Estados Unidos, Chile, México e no Brasil, principalmente nos atos a favor de Lula , do PT , reeleito presidente neste domingo.

O estandarte dos piratas ainda dividiu espaço nos protestos com imagens e músicas da franquia " Jogos Vorazes ", menções às letras de divas pop , como "Ain't From LA", de Adéla, imagens de ídolos do k-pop e de filmes que marcaram a cultura daqueles que têm hoje entre 15 e 30 anos.

Estudantes franceses , por exemplo, que ocupam as ruas de Paris para exigir melhores condições de ensino , receberam uma orquestra jovem que tocou num protesto a canção "The Hanging Tree", de um dos filmes da saga "Jogos Vorazes" e que na trama simboliza o espírito de resistência e de rebelião coletiva dos personagens. A apresentação foi interrompida por gás lacrimogêneo, mas foi registrada em vídeo.

Em vez de se limitar a bandeiras nacionais, palavras de ordem e emblemas partidários, os jovens manifestantes recorrem a universos ficcionais, artistas, vídeos verticais engraçados para as redes e narrativas que fazem parte de seu cotidiano para expressar insatisfação e construir identificação coletiva.

Para Paolo Demuru , especialista em semiótica, além de professor e autor do livro "Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração", a força desses elementos está na capacidade de condensar reivindicações distintas em torno de valores comuns.

Uma bandeira criada para uma obra de ficção pode, assim, adquirir significados que ultrapassam a história original. "O símbolo não é algo que é dado. As coisas se tornam simbólicas, não nascem assim", diz Demuru.

Uma tesoura, por exemplo, é apenas um objeto até que se crie uma narrativa econômica que a use como símbolo. O autor ainda aponta que os significados não são fixos e estão sujeitos a disputas de narrativas e transformações conforme os símbolos circulam por diferentes contextos.

Animes e mangás, por exemplo, circulam no Ocidente desde as últimas décadas do século 20, formando públicos que compartilham personagens, histórias e códigos culturais, mesmo quando vivem em países distantes. As redes sociais ampliam essas conexões e permitem que referências inicialmente restritas a comunidades de fãs saiam das telas e sejam incorporadas a manifestações públicas.