Como se reconciliar com alguém que você brigou por causa das eleições

Com o fim das eleições presidenciais em outubro, algumas pessoas podem repensar aquela relação afetada por opiniões políticas diferentes. É possível retomar laços rompidos e se reconciliar com um amigo, parente ou parceiro com quem brigou, afirmam psicólogas.

Por Admin ·

Como se reconciliar com alguém que você brigou por causa das eleições

Em primeiro lugar, é importante que haja interesse genuíno e que ambos os lados estejam dispostos emocionalmente a voltar a se falar, afirma Huíla Cardoso, psicóloga clínica.

"Estou falando com o outro porque quero provar que eu estou certo ou estou realmente disposto a dialogar sobre a nossa relação?", questiona Marília Gabriela Leme, psicóloga especialista em terapia de família e de casal e presidente da Associação Paulista Terapia Familiar (APTF).

O processo exige comprometimento, paciência e respeito, diz Cardoso. As psicólogas também recomendam avaliar se vale manter a relação. Dependendo das feridas causadas, a distância é a melhor solução.

Perdoar não é obrigatório , afirmam as especialistas. Leme orienta analisar a qualidade da relação e o que se ganha e o que se perde ao se afastar, para então decidir. Às vezes, a política é usada como bode expiatório para conflitos que já existiam, diz a presidente da APTF.

Segundo as psicólogas, conflitos e angústias causados por política têm sido frequentes nos consultórios e se intensificam no período eleitoral . "As pessoas estão ansiosas e emocionalmente vulneráveis, seja de um lado, seja do outro", diz Leme.

Para Cardoso, há um fenômeno moderno em que a escolha política se funde à personalidade. "À medida que isso acontece, quando há uma discordância daquilo que eu acredito, é como se fosse um ataque pessoal." A opinião diferente é interpretada como uma ameaça. "Quando a pessoa se sente ameaçada, ela foge ou ataca."

E esses ataques corroem o vínculo, ela completa. "Porque a gente começa não a combater ideias, mas a combater pessoas, ainda que seja alguém que eu amo."

As psicólogas dizem que conflitos por divergências partidárias se intensificaram com a polarização desde as eleições presidenciais de 2018 , disputadas por Fernando Haddad ( PT ) e Jair Bolsonaro ( PL ).

Foi nessa época que a bióloga Lorena Maniva, 45, se distanciou do pai após uma briga. Eles pensavam diferente: ela pendia para a esquerda, e ele, para a direita, mas não tinham atritos. Até 2018, quando "ficou feio mesmo", diz ela. Morando em estados diferentes, discutiam pelo WhatsApp e se afastaram ainda mais.

Eles voltaram a se falar por causa da pandemia . Maniva se preocupava com a saúde do pai, hoje com 72 anos, que se recusava a tomar vacina . Mesmo sem um pedido formal de desculpas, restabeleceram o contato aos poucos, mas não tocam mais no assunto. "Fico até tensa quando encontro com ele pessoalmente, porque a qualquer momento uma coisinha boba pode gerar uma briga grande", ela diz.

Nem sempre um concorda exatamente sobre tudo com o outro numa relação, avalia Cardoso, que sugere levar essa flexibilidade para o campo político. Uma relação saudável respeita o contraditório, diz ela.

Deve tomar a iniciativa de reparar o vínculo quem sente que esse movimento deve ser feito, afirma Leme. Cardoso orienta fazer uma autoanálise e avaliar se falou algo que machucou o outro, e então pedir desculpa.

Maniva também já rompeu laços com uma amiga do trabalho por divergências partidárias. A bióloga, no entanto, chegou à conclusão de que havia passado do ponto e se desculpou. "Não é questão só de política, mas de princípios e moralidade, até de sobrevivência. Não ter essas pessoas perto de mim é uma forma de manter a minha sanidade mental ", explica.