Como o crítico Jorge Augusto propõe revolução na cena literária negra e brasileira

Desde que a obra de Lima Barreto foi recuperada pela crítica literária brasileira como parte integrante de seu cânone, o adjetivo "triste" costumou acompanhar o autor. Muito por associação ao seu romance mais conhecido, "Triste Fim de Polic

Por Admin ·

Como o crítico Jorge Augusto propõe revolução na cena literária negra e brasileira

Nas poucas fotografias a que temos acesso, o autor carrega sempre o semblante severo. Mas, na capa de "Modernismo Negro", do poeta e professor Jorge Augusto, Lima Barreto exibe um sorriso, ainda que contido.

É a fotografia de sua ficha de internação, tirada em 1914, alterada por inteligência artificial para fazê-lo sorrir. Vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria de letras, linguística e estudos literários, o autor explica que a capa reflete o propósito do livro.

"A capa é um recado: o que vocês vão ver aqui não é o que estão acostumados a ver na tradição, a literatura negra como um texto pesado, cheio de dor, luto, resistência e violência, mas o negro sorrindo", aponta o pesquisador. "Esse lado da luta também está presente, porque faz parte da vida não só do negro, mas do Brasil. A capa diz: nós estamos vivos e sabemos sorrir."

O riso de canto de boca de Barreto se abre em ilustrações internas que vão escancarando o que Augusto chama de "uma gargalhada na cara dos caretas", refletindo a ironia e o gracejo da literatura do autor de "Triste Fim de Policarpo Quaresma". Questiona: "O que é sorrir tendo uma vida periférica e negra?"

A aspiração do livro é partir de sua literatura para discutir o campo das letras de forma mais ampla. Jorge Augusto escreve que seu investimento crítico é "mover o campo da literatura brasileira, multiplicar seus movimentos, alargar seus espaços, democratizar seu acesso".

Tal ímpeto de transformação atravessa também sua atuação como professor universitário, poeta e pesquisador.

Nascido em Salvador e criado no bairro da Liberdade, um dos mais populosos da cidade e importante centro da cultura afro-brasileira, Augusto enxergava na Bahia uma cena literária "asfixiada, branca e elitista", com poucas possibilidades de publicação nas mais diversas linhas de produção textual. "Era preciso revolucionar essa cena", diz ele.

Essa revolução foi feita no formato da editora Organismo, que fundou em 2013 ao lado da antropóloga e socióloga Fernanda Santiago. Sua coleção de estreia, "novos autores", era voltada para poetas inéditos radicados na Bahia.

Em 2018, a editora inaugurou o Segundo Selo, linha responsável pela publicação de literatura, teoria e crítica, com o objetivo de incentivar a circulação de trabalhos que têm a democracia e a diversidade como princípios constitutivos. É pela Segundo Selo que Jorge Augusto, não mais no papel de editor e sim de consultor da casa editorial, publica "Modernismo Negro".

A atuação editorial de Augusto reflete o pensamento sobre a formação da literatura brasileira desenvolvido no livro. O crítico observa que um certo projeto literário nacional anda sob suspeita.

Seu estudo integra um movimento recente na academia e no mercado editorial que questiona a hegemonia do "projeto moderno proposto pela elite colonial/burguesa" na formação do campo crítico nacional.

Se esse projeto exclui os cantos, provérbios e demais expressões orais e territorializadas de culturas africanas, uma parcela da crítica já disputa o espaço da cultura da periferia —que para o autor é definido pela cultura negra— na formação da literatura nacional.

"Não se trata de construir uma história da literatura negra no Brasil", escreve, "mas de entendermos que não existe literatura brasileira sem a produção textual negra".

Nesse contexto, a crítica literária tem o papel de renovar seus métodos para reconhecer os saberes de culturas afro-brasileiras e indígenas na produção nacional.

"Por que Nêgo Bispo , Ailton Krenak e Davi Kopenawa fazem tanto sucesso hoje?", pergunta Augusto. "Porque eles nos dão um pouquinho de esperança, outros caminhos para imaginar uma liberdade em sentido coletivo".

Ele defende a literatura como um lugar de disputa de formas imaginativas de futuro, frente ao esgotamento do neoliberalismo.

"Estamos asfixiados, precisamos de outras possibilidades. Mas elas não podem ser dadas hoje pela cultura europeia e estadunidense", afirma. "Precisamos entender que as pessoas não estão lendo tanta literatura negra e indígena porque elas são boazinhas, mas porque são as literaturas que apontam para outras possibilidades de ver o mundo."