Investigação inicial aponta laptop comprometido e brechas; empresa promete segurança mais rígida
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The New York Times Por volta das 16h20 de quinta-feira (29), uma série de transações incomuns começou a causar alarme na Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo .
O dinheiro jorrava das contas da empresa, em uma enxurrada multibilionária de moedas digitais. Tudo tinha as características de um assalto com criptomoedas —um roubo a banco em alta velocidade realizado pela internet.
À medida que a notícia se espalhava, os principais executivos da Binance montaram uma espécie de sala de crise informal no Wea, o sistema interno de mensagens da empresa, com cerca de cem participantes, entre eles especialistas em rastreamento de criptomoedas e profissionais de segurança.
Depois, eles migraram para uma grande teleconferência, com cem janelas na tela, na qual os funcionários se revezavam ativando e desativando o microfone e se comunicavam em uma mistura de inglês e chinês.
Entre eles estava He Yi, copresidente-executiva da Binance, grávida de sete meses, que trabalhou durante toda a noite de sua base em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e participou de uma ligação às 3h no horário local.
He e seus colegas enfrentavam uma das crises mais graves da longa e conturbada história da Binance. Segundo analistas, uma equipe de hackers norte-coreanos havia invadido a corretora e drenado mais de US$ 6 bilhões no maior roubo de criptomoedas de todos os tempos.
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A Binance foi obrigada a suspender depósitos e saques e publicou uma série de mensagens aflitas na plataforma social X, prometendo cobrir quaisquer perdas.
Era uma situação surreal, tornada ainda mais insólita pelas atitudes do fundador da Binance, Changpeng Zhao, que passou a noite narrando os acontecimentos para seus 12,9 milhões de seguidores no X.
Ele publicou emojis de mãos em oração, trocou farpas publicamente com o dono da plataforma, Elon Musk, e insistiu que "os fundos dos usuários estão SAFU" — recorrendo a uma gíria do universo cripto para tranquilizar os clientes de que centenas de milhões de dólares em depósitos não desapareceriam no ar.
"Dói, mas vamos sobreviver", declarou Zhao.
O impacto do ataque à Binance reverberou por todo o setor de criptomoedas, de Abu Dhabi a Nova York, desencadeando uma corrida para recuperar parte dos fundos roubados e levando as autoridades a abrir investigações.
Este relato de como o ataque ocorreu se baseia em entrevistas com quatro pessoas a par dos acontecimentos, além de análises de empresas de perícia em criptomoedas e documentos examinados pelo The New York Times.
Há anos, a Binance é a empresa mais importante e controversa do universo cripto. Depois que Zhao a fundou, em 2017, ela rapidamente se transformou em uma gigante, o principal destino de clientes que buscavam converter moedas tradicionais em ativos digitais como Bitcoin e Ether.
A empresa também se tornou um refúgio para atividades criminosas. Em 2023, a Binance se declarou culpada por violações das leis de combate à lavagem de dinheiro que haviam permitido a movimentação de recursos por criminosos e pagou US$ 4,3 bilhões em multas a órgãos reguladores dos Estados Unidos . Zhao foi condenado a quatro meses de prisão.
Apesar de todos os seus problemas, porém, a Binance nunca perdeu popularidade entre os entusiastas das criptomoedas. Ela continua sendo, com ampla vantagem, a maior corretora do mundo, e Zhao, que vive em Abu Dhabi, é uma espécie de herói popular do setor.
A principal plataforma da Binance é proibida nos Estados Unidos. No ano passado, contudo, a empresa estabeleceu uma relação comercial com a World Liberty Financial, startup de criptomoedas da família Trump. O presidente Donald Trump concedeu perdão a Zhao em outubro passado, abrindo caminho para a expansão da Binance no mercado americano.
Mas, na noite de 29 de outubro, a empresa teve de lidar com as consequências do ataque de US$ 6 bilhões.
Ataques desse tipo se tornaram comuns no universo cripto. Em fevereiro de 2025, os norte-coreanos roubaram US$ 1,5 bilhão da Bybit, uma corretora rival.
A invasão ocorreu depois que Ben Zhou, presidente-executivo da empresa, aprovou uma transação aparentemente rotineira que deu aos ladrões acesso ao sistema interno da corretora.
Ainda não está claro exatamente como os norte-coreanos contornaram as defesas da Binance. Uma investigação inicial apontou para um laptop comprometido, informou a Binance na sexta-feira (30). Mais tarde, porém, a empresa disse ter descoberto "outros pontos de invasão".
Grande parte do drama se desenrolou em público. Quase todas as transações com criptomoedas são registradas no blockchain, um livro-razão das movimentações financeiras que qualquer pessoa pode consultar. Isso permitiu que analistas de criptomoedas vissem os recursos saindo da Binance em tempo real.
Na tarde de quinta-feira, Jonathan Levin, presidente-executivo da empresa de análise de criptomoedas Chainalysis, participava de uma videochamada com um ex-alto funcionário do governo americano e discutia a necessidade de os Estados Unidos lançarem ataques cibernéticos contra adversários. Foi então que Levin recebeu a notícia sobre a Binance.
"Olhei para o celular e pensei: ‘Isso não parece nada bom’", disse ele em entrevista.
Um grupo de funcionários da Chainalysis se reuniu em uma sala de conferências em Nova York chamada "Silk Road", em referência a outra plataforma de criptomoedas que ficou conhecida por ter sido invadida.
Eles trabalharam até as primeiras horas da manhã de sexta-feira, comendo comida malaia e analisando transações para formar uma imagem mais clara do que havia acontecido.
Logo, tanto a Chainalysis quanto outra empresa de análise, a TRM Labs, atribuíram o ataque a uma unidade de elite de hackers norte-coreanos chamada TraderTraitor.
Há anos, norte-coreanos têm empresas de criptomoedas como alvo e usam os recursos obtidos nesses roubos para financiar o programa nuclear do país, segundo autoridades ocidentais.
Os hackers desenvolveram estratégias cada vez mais complexas para roubar criptomoedas e lavar os recursos, um trabalho meticuloso que pode levar meses para ser concluído.
Em uma publicação feita na sexta-feira, a Chainalysis afirmou que os invasores haviam empregado "padrões de lavagem de dinheiro que nunca havíamos visto", realizando milhares de transações em um curto período, provavelmente com a ajuda de automação.
Ao mesmo tempo, empresas do setor se mobilizaram para ajudar a Binance a interceptar parte das criptomoedas em processo de lavagem. Alguns emissores de moedas digitais conseguem congelar recursos, o que lhes permite interromper uma operação de lavagem de dinheiro.
Pouco depois do ataque, Tether e Circle, duas grandes emissoras, anunciaram ter congelado reservas de suas próprias moedas que os hackers haviam roubado da Binance, num total combinado de mais de US$ 2 bilhões em criptomoedas.
A Binance agora trabalha para obter acesso a esses recursos, informou a empresa.
Mas US$ 2,4 bilhões em criptomoedas já estão "fora do alcance de qualquer emissor", segundo a TRM. Em uma publicação nas redes sociais na sexta-feira, a Binance afirmou ter reservado US$ 6,34 bilhões para cobrir as perdas decorrentes do ataque.
Não se sabe publicamente quanto dinheiro a Binance mantém em reservas. Depois da meia-noite, Musk publicou um emoji de careta em resposta a uma postagem no X que comparava Zhao a Sam Bankman-Fried, o desmoralizado magnata das criptomoedas cuja corretora FTX entrou em colapso em 2022.
"Péssima hora para provocar", respondeu Zhao. "Por favor, pare." Ele observou que a Binance possui mais de US$ 1 bilhão em ações da SpaceX, empresa de foguetes de Musk.
O comentário de Zhao chamou a atenção de He, copresidente-executiva da Binance e sua parceira romântica de longa data. (Zhao é o acionista majoritário da Binance, mas não ocupa nenhum cargo formal na empresa.)
"A receita anual de nossa empresa é suficiente para cobrir as perdas, portanto ainda não precisamos vender as ações da SpaceX", escreveu He.
Com o setor abalado, He e o outro copresidente-executivo, Richard Teng, disseram aos funcionários da Binance que "mantivessem a disciplina" , segundo uma mensagem examinada pelo Times.
"Não façam especulações interna ou externamente", dizia a mensagem. "Sabemos que este é um momento tenso e agradecemos profundamente a todos que estão fazendo hora extra para resolver a situação."
Eles também tentaram responder à crescente apreensão no universo cripto. Falando em mandarim em um vídeo publicado no X na sexta-feira, He afirmou que o avanço da inteligência artificial havia transformado os ataques hackers em "uma ameaça para todo o setor".
"É claro que há muitas coisas que fizemos de errado", disse ela. "Deveríamos ter investido em segurança muito antes e de forma mais ampla, além de estabelecer padrões mais rigorosos."
A notícia do ataque à Binance chegou até Trump, que foi questionado sobre o assunto por um repórter na sexta-feira. "As pessoas nunca mais veem o dinheiro", disse ele.
"Sempre achei que fosse um pouco perigoso. Mas dizem que a situação está praticamente sob controle. Veremos."
Entre as empresas que correram em auxílio da Binance estava a World Liberty, companhia da família Trump e emissora de uma moeda conhecida como USD1.
Zach Witkoff, presidente-executivo da empresa e filho de um dos principais assessores de Trump, anunciou no X que a World Liberty havia congelado US$ 27 milhões em USD1 "associados ao ataque à Binance".
"Apoiamos nossos parceiros do setor", escreveu ele.
"Obrigado!", respondeu Zhao, seguido de três emojis de mãos em oração.
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