Como Brasil perdeu liderança mundial das terras raras para China

[RESUMO] Separar e purificar os 17 elementos quase indistinguíveis das terras raras desafia a química há mais de três séculos. Hoje, eles são insumos essenciais para motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônica avançada e sistemas militares. Desde os anos 1

Por Admin ·

Como Brasil perdeu liderança mundial das terras raras para China

A biografia de Xu Guangxian (1920-2015) entrelaça-se com a ascensão científica da China contemporânea.

Na milenar Shaoxing, sua cidade natal, uma estátua de bronze e um museu quase devocional preservam sua vida e obra; no centenário de seu nascimento, em 2020, a homenagem se estendeu a universidades e instituições científicas chinesas, com exposições, cerimônias e edições especiais de revistas acadêmicas.

Xu recebeu a mais alta distinção científica do país e passou a ser referido oficialmente como o "pai da química chinesa das terras raras" . Nos anos 1970, formulou uma nova teoria de extração por solventes em cascata que permitiria levar à escala industrial a separação dos lantanídeos, os 15 elementos que formam o núcleo do grupo das terras raras, completados pelo escândio e pelo ítrio.

Como esses elementos têm propriedades químicas muito semelhantes entre si, isolá-los com elevado grau de pureza e em escala industrial era, e ainda é, um dos trabalhos de Hércules da química industrial.

Algumas décadas antes, Pawel Krumholz (1909-1973) já tentava, no Brasil, separar o que a natureza mantivera quimicamente unido. Químico austro-húngaro com doutorado pela Universidade de Viena, deixou a Europa às pressas durante a Segunda Guerra Mundial, chegou ao Brasil em 1941 e naturalizou-se em 1945.

Na empresa Orquima S.A ., da qual foi um dos quatro fundadores em 1942 e depois diretor científico, Krumholz ajudou a construir uma competência tecnológica excepcional para um país cientificamente débil, reunindo pesquisa industrial, separação de terras raras e produção de compostos de elevada pureza.

Em declarações à Folha , Marco Aurelio De Paoli, 77, professor aposentado do Instituto de Química da Unicamp, afirma que o seu antigo orientador de doutorado "foi o pioneiro na separação das terras raras em nível mundial. Por essa razão era detentor das patentes que protegiam a tecnologia".

A matéria-prima era a monazita, trazida do litoral fluminense e capixaba, um mineral fosfatado rico em terras raras. A partir de experiências realizadas no laboratório de sua residência no Jardim Paulista e na planta industrial da Orquima na Avenida Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro (São Paulo), Krumholz e sua equipe conseguiram separar elementos individuais com graus de pureza extraordinários para a época, trabalhando com troca iônica, cristalização fracionada e outros métodos seletivos.

Produziram "cloretos mistos ou concentrados de terras raras para a fabricação de catalisadores, vidros óticos especiais e ligas metálicas", afirma Fernando Galembeck, 83, o primeiro doutorando de Krumholz nos anos 1970 e professor emérito de química da Unicamp.

O caso mais notório foi o óxido de európio "com cerca de 97% a 99% de pureza, uma marca extraordinária para a década de 1950, tornando-se o primeiro fornecedor comercial do mundo de concentrado de európio puro", diz Galembeck.

A Orquima exportou 200 kg de óxido de európio para aplicações nucleares nos Estados Unidos; parte desse material foi destinada ao reator do USS Nautilus, o primeiro submarino nuclear operacional do mundo.

A equipe também isolou uma quantidade então recorde de óxido de lutécio com pureza superior a 99,9%. Európio e lutécio são 2 dos 17 elementos que integram o grupo das terras raras. Enquanto isso, do outro lado do mundo, Xu Guangxian tinha pouco mais de 20 anos e ainda se formava como químico numa China em guerra com o Japão.