Uma virada inédita marcou as eleições presidenciais no Brasil em 2026. Pela primeira vez na história democrática recente do país, um candidato derrotado no primeiro turno conseguiu reverter o resultado na etapa decisiva. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reflete uma mudança nas estratégias de comunicação digital, que passaram a priorizar a mobilização de eleitores.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) liderou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula – uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. Na votação final, o resultado se inverteu: o petista conquistou 51,79%, enquanto o adversário recebeu 48,21%.
Mas como a campanha de Lula conseguiu transformar o cenário em apenas 21 dias?
Lula, que ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais em 2026, venceu o pleito, marcando a primeira vez na história que isso acontece. – Foto oficial da candidatura registrada no TSE
Em Brasília, o PT estruturou uma sala de situação coordenada pelo secretário de Organização do partido, Laércio Ribeiro de Oliveira. O senador Camilo Santana assumiu a coordenação política, o senador eleito Rui Costa ficou responsável pela agenda e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, pela comunicação.
Conforme relatado ao G1, a equipe analisou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para identificar diferenças regionais no comportamento do eleitorado. A partir desse levantamento, definiu onde intensificar críticas ao adversário, reforçar mensagens de esperança e concentrar esforços para estimular a participação de pessoas que poderiam se abster.
Tropas e Exércitos: como o WhatsApp virou meio de convocação
Para o neurocientista e futurista Álvaro Machado Dias, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colunista do Olhar Digital, o intervalo reduzido entre os turnos foi determinante para a mudança de estratégia. Com pouco tempo disponível, convencer eleitores do campo adversário deixou de ser a prioridade.
“No primeiro turno, as redes estavam servindo fundamentalmente como ambiente de convencimento, mas o que acontece no segundo turno, o que foi percebido, dado a janela temporal que é muito restrita, que tentar convencer as pessoas do outro lado não valia a pena, não dava tempo e, sobretudo, as pesquisas mostravam um alto grau de convicção, do ponto de vista decisório”, explicou o especialista em participação no programa Olhar Digital News.
Ele observou que, com as preferências eleitorais relativamente consolidadas, as campanhas passaram a concentrar esforços em transformar simpatizantes em participantes efetivos da votação. O professor destaca que os aplicativos de mensagens ganharam importância nesse processo, funcionando como canais de convocação e organização de apoiadores. A meta era fazer com que eleitores propensos à abstenção comparecessem às urnas.
Machado Dias identifica essa mudança também nas denominações escolhidas para os principais grupos de WhatsApp das campanhas. Tanto a “Tropa do Flávio” quanto o “Exército do Lula” remetiam à ideia de ação coletiva e deslocamento. Para o especialista, essa linguagem traduzia a passagem de uma estratégia de convencimento para outra, baseada na mobilização.
“Então a aposta mudou, se tornou muito menos a do convencimento e muito mais a de tirar do sofá de casa o sujeito que estaria propenso a uma abstenção. E a gente pode ver na maneira como os dois lados caracterizaram os seus grupos de WhatsApp principais. Tropas e exércitos marcham, caminhando para alguma coisa, todos juntos. Essa é a história que está em curso ali, é uma história de mobilização e não exatamente de convencimento.”
Álvaro Machado Dias em participação no programa Olhar Digital News, com Marisa Silva. – Crédito: Olhar Digital
Redes sociais expandiram bolhas digitais no segundo turno
O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que reuniu 10,5 milhões de participantes, procurava ampliar o alcance das mensagens da campanha por meio do compartilhamento entre integrantes.
Essa estratégia também alterou a dinâmica das chamadas bolhas virtuais. Em vez de manter comunidades fechadas, formadas exclusivamente por pessoas com opiniões semelhantes, a proposta era incorporar novos participantes continuamente. O crescimento dos grupos tornou-se parte do próprio processo de mobilização, criando vínculos e estimulando o envolvimento de pessoas inicialmente afastadas da disputa.
“A grande estratégia, por exemplo, no caso do Janones, que teve evidentemente êxito nisso, foi trazer para dentro do grupo de WhatsApp dele o maior número possível de pessoas, inclusive pessoas que no fundo estavam propensas a seguir sem votar, porque ele acreditava que nesse movimento ele poderia fazer as pessoas se tornarem parte”, analisou Machado Dias. “Ou seja, a ideia toda dessa bolha, dessa vez, não foi manter a sua superfície fechada dentro de um grupo de pessoas totalmente alinhadas. Mas crescer ao máximo para incorporar os outros e dar esse senso de urgência.”
O ambiente restrito desses grupos também podia reforçar a percepção de que a vitória estava próxima. A circulação predominante de mensagens alinhadas às convicções dos participantes favorecia expectativas positivas sobre o resultado. Com isso, uma eventual derrota poderia representar uma surpresa para integrantes que não tinham contato frequente com opiniões divergentes.
Paralelamente, Lula ampliou sua comunicação regionalizada seguindo orientações de Fonteles. O candidato gravou vídeos direcionados a estados estratégicos, como São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, e procurou se aproximar de jovens lideranças políticas vitoriosas no primeiro turno. A intenção era fortalecer a presença da campanha em diferentes segmentos do eleitorado.
Outra frente envolveu a organização de redes humanas para distribuir conteúdos. Os próprios apoiadores passaram a executar tarefas de publicação, compartilhamento, uso de hashtags e interação nas plataformas. Na avaliação de Machado Dias, essas estruturas reproduziam uma lógica algorítmica, mas dependiam da coordenação e da participação direta das pessoas. “A bolha é um ambiente de fabricação de uma estrutura comportamental, diga-se de passagem, altamente eficiente, que tem natureza algorítmica.”
No segundo turno, as campanhas priorizaram a mobilização digital, utilizando redes sociais para engajar apoiadores e combater a abstenção. – Créito: Imagem gerada por IA
Metas diárias impulsionaram mobilização digital coordenada
As atividades também incorporaram elementos de gamificação, com metas diárias que estimulavam a participação dos integrantes. O cumprimento das tarefas reforçava o sentimento de pertencimento e transformava apoiadores em agentes de distribuição das mensagens políticas. Dessa forma, a mobilização digital ultrapassava o consumo de conteúdo e envolvia ações coordenadas.
Apesar da eficiência dessas estratégias, a eleição não representou uma mudança significativa na polarização política brasileira. As redes sociais continuaram reforçando identidades e convicções preexistentes, enquanto a mobilização dos apoiadores não se traduziu em maior aproximação entre os campos adversários. A divisão permaneceu presente também nas relações familiares e sociais.
Para Machado Dias, o cenário posterior à votação indica continuidade da polarização, embora possa haver mudanças nas lideranças conservadoras. O especialista avalia que o bolsonarismo pode perder força como unidade ideológica e dar espaço a representantes com outras características, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
“A marca principal não é de mudança, portanto, é de continuidade. E a continuidade é a da polarização que, na minha leitura, ela tende a mudar a partir de agora, não na sua natureza fundamental, mas do ponto de vista dos grupos polarizados. Porque o que parece que sai dessa fuga do país do Flávio é um enfraquecimento do bolsonarismo como uma unidade ideológica que, eventualmente, vai ser ressignificada com novas lideranças, que eu acredito que eventualmente saiam do próprio bolsonarismo, como, sobretudo, o Tarcísio, mas que têm uma pegada diferente, mais sóbria, mais técnica, enfim, no final das contas, menos bélica.”
O resultado também evidencia como a disputa política se estende para além dos períodos de campanha. A capacidade de manter comunidades ativas, influenciar conversas e organizar redes de apoiadores tornou-se parte da construção de força eleitoral. Em 2026, essa estrutura teve peso decisivo em uma eleição que parecia caminhar para outro desfecho.