Como as capas dos livros de terror revelam os medos coletivos de cada época

Mais do que chamar a atenção nas prateleiras, capas de livros de terror guardam —e revelam— as ansiedades e medos do tempo em que foram produzidas.

Por Admin ·

Como as capas dos livros de terror revelam os medos coletivos de cada época

Em "Paperbacks from Hell", ainda não lançado no Brasil, o escritor e colecionador de livros Grady Hendrix revisita capas que circularam nos Estados Unidos dos anos 1960 aos 1990, período em que, segundo ele, a falta de medo de controvérsias permitiu designs bastante diretos.

"Não são apenas as capas que fisgam o olhar. É também a escrita, que não respeita nenhuma regra, a não ser uma: ser sempre interessante", escreve Hendrix.

O americano já publicou no Brasil títulos como "O Exorcismo de Minha Melhor Amiga" e "Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros". As capas de seus livros simulam o estilo que ele conta admirar: simples e jocoso.

Mais do que qualquer outro gênero, diz, o terror é um produto de seu tempo, expondo os medos de hoje e antecipando os que estão por vir. Segundo Adriano Messias, psicanalista e semioticista, as formas assumidas pelo medo variam conforme as demandas sociais. "Todo monstro tem uma relação direta com o nível de mal-estar na cultura de cada época, de cada país, de cada circunstância", afirma.

Nos anos 1950, por exemplo, os medos do comunismo e de uma guerra nuclear encontraram expressão em filmes sobre invasores alienígenas , frequentemente vindos de Marte, o planeta vermelho . Por outro lado, até a epidemia de aids dos anos 1970, personagens eram mais livres para explorar sua sexualidade.

Para Messias, são sete as representações do monstruoso no mundo de hoje. Os zumbis representam a exaustão e a perda de autonomia —com o " burnout " se aproximando de uma zumbificação.

Histórias sobre " doppelgängers " traduzem o medo do outro em um mundo de polarização. Os transmorfos evocam a desconfiança sobre a informação diante de tanta fake news.

O ecoterror expõe a humanidade como agente da destruição ambiental. Ameaças tecnológicas revelam a dependência das pessoas em um mundo digital que pouco compreendem. Os vampiros, sugadores de sangue, simbolizam a exploração corporativa. Já crianças cruéis expressam a instabilidade de infâncias cada vez mais roubadas por patologias.