Como a cultura nacional foi reinventada há 70 anos, com obras como

Em textos publicados entre as décadas de 1970 e 1990, o crítico piauiense Francisco de Assis Almeida Brasil (1929-2021) insistiu que 1956 foi um ano excepcional para a nossa literatura. Ele elencava “três pontos básicos”, de “natureza genui

Por Admin ·

Como a cultura nacional foi reinventada há 70 anos, com obras como

Em textos publicados entre as décadas de 1970 e 1990, o crítico piauiense Francisco de Assis Almeida Brasil (1929-2021) insistiu que 1956 foi um ano excepcional para a nossa literatura. Ele elencava “três pontos básicos”, de “natureza genuinamente estética”, para justificar seu diagnóstico. Primeiro, a publicação de dois romances: “Doramundo”, de Geraldo Ferraz, que combina a ousadia formal, crítica social e uma atmosfera sombria (é ambientado numa cidade ferroviária do interior), e “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa . Em segundo lugar, o surgimento da poesia concreta e a criação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que ajudou a difundi-la. E, por fim, a estreia de Samuel Rawet com “Contos do imigrante”, que se destacou por dar voz a personagens desenraizados e pela inovação estilística.

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Assis Brasil poderia ter continuado a lista: 1956 foi pródigo em grandes obras artísticas, e não somente na literatura. Como se não bastasse “Grande sertão”, Guimarães Rosa também lançou “Corpo de baile” (novelas) e João Cabral de Melo Neto incluiu “Morte e vida severina” na coletânea “Duas águas”. Também saíram “O encontro marcado”, de Fernando Sabino , e “A Lua vem da Ásia”, de Campos de Carvalho (a primeira frase do livro resume o projeto literário do autor: “Aos dezesseis anos, matei meu professor de Lógica”).

O Teatro Experimental do Negro estreou “Orfeu da Conceição” no Theatro Municipal do Rio em 25 de setembro. O texto de Vinicius de Moraes transpunha o mito grego de Orfeu e Eurídice para o morro carioca, a trilha sonora era fruto da parceria com Tom Jobim e o cenário era de Oscar Niemeyer. Em 18 de outubro, Flávio de Carvalho desfilou pelo Centro da capital paulista envergando seu “traje de verão”: camisa bufante, saia plissada, meia arrastão e sandálias de couro. Em dezembro, a Exposição Nacional de Arte Concreta ocupou o Museu de Arte Moderna de São Paulo com cartazes-poemas, desenhos, pinturas e esculturas de Lygia Pape, Ferreira Gullar e dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos , entre outros artistas. E tudo no primeiro ano do mandato de Juscelino Kubitschek , que prometia avançar “50 anos em cinco”.

Organizador do colóquio “1956: um ano excepcional na literatura brasileira”, que começou nesta terça-feira (3) e termina na quinta (5) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o professor Henrique Balbi explica que tamanha fartura artística resulta do adensamento de processos que remontavam às décadas anteriores.

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— Desde os anos 1930, a literatura brasileira vinha incorporando o “outro”, essa figura que não é o intelectual branco, urbano, das classes altas. Em 1956, esse outro aparece em obras como “Grande sertão”, “Morte vida severina” e “Orfeu da Conceição”. No caso de romances psicológicos, como “O encontro marcado” e “A Lua vem da Ásia”, esse outro é, de certo modo, interno — afirma Balbi. — As obras de 1956 têm em comum uma aposta na radicalidade estética, na invenção, que se vê no caráter monumental de “Grande sertão”, no antirrealismo de Campos de Carvalho e na afirmação dos concretistas de que o verso tradicional tinha acabado.

O ano de 1956 marcou o fim do ciclo regionalista na literatura brasileira, explica Rogério Santana, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Depois do monólogo do jagunço Riobaldo, aventurar-se no romance rural virou um desafio quase intransponível. Tanto porque parecia improvável superar “Grande sertão” em termos estéticos como porque, no Brasil de JK, as cidades prosperavam, a indústria automobilística se consolidava e uma capital moderna se erguia no meio do Cerrado.

Além da obra máxima de Rosa, outros romances rurais chegaram às livrarias em 1956, como “Vila dos confins”, do mineiro Mário Palmério, e “O tronco”, do goiano Bernardo Élis. Na contramão de autores como Simões Lopes Neto e Hugo de Carvalho Ramos, que, nas primeiras décadas do século XX, enfatizaram o que havia de “pitoresco” no Brasil rural, Palmério e Élis privilegiaram as relações políticas: o primeiro fala de eleições fraudadas e o segundo do conflito entre coronéis e poder público. Aliado ao apuro estético (herdado dos autores da década de 1930, como Graciliano Ramos), o foco na política acabou por esvaziar o rótulo “regionalista”.

— Ao abandonar temas pitorescos, autores como Élis e Palmério nacionalizam o rural e Rosa acrescentou ao sertão a dimensão mística, espiritual, que coloca em xeque a própria ideia de regionalismo — afirma Santana.

Se “Grande sertão” encerrou o ciclo regionalista, “Contos do imigrante”, livro de Samuel Rawet citado por Assis Brasil, deu impulso às narrativas urbanas. Judeu nascido na Polônia e criado no Rio, Rawet escala personagens como um menino hostilizado pelos colegas por sua origem estrangeira e apelidado de Gringuinho.

— Não dá para pensar a literatura isolada da vida social, e Rawet questiona o ufanismo dos anos JK. Ele mostra quem foi deixado às margens do progresso e um certo tipo de violência que não é a do Rubem Fonseca, mas aquela que vai destruindo a pessoa por dentro — afirma Regina Dalcastagnè , professora da Universidade de Brasília (UnB) e autora de “Uma história da literatura brasileira contemporânea” (Todavia). — Ao retratar os marginalizados da cidade, Rawet abriu uma trilha seguida por autores como João Antônio, Luiz Ruffato e Marcelino Freire.

Também foi em 1956 que Vinicius de Moraes, que, nos anos 1930, havia se notabilizado por sua poesia atormentada pela espiritualidade católica, consolidou-se como o poeta popular que ajudaria a criar a bossa nova. “Orfeu da conceição”, que ele começara a conceber ainda na década de 1940, marca sua aproximação com a cultura popular e a canção (o espetáculo apresentou clássicos como “Se todos fossem iguais a você”). Num momento em que a identidade nacional estava novamente em discussão, Vinicius reuniu diferentes expressões artísticas (versos decassílabos, música, a arquitetura de Niemeyer) e valorizou a cultura negra.

— “Orfeu da Conceição” representa um projeto de Brasil, de uma nova identidade nacional, mas idealiza a vida das favelas e ressalta uma dimensão estereotipada e orgiástica das religiões afro-brasileiras que não corresponde à avaliação da cultura negra sobre si mesma — afirma o pesquisador João Paulo Bense, lembrando que Vinicius rejeitou a adaptação cinematográfica da peça, “Orfeu negro”, dirigida pelo francês Marcel Camus e vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960.

Professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Pedro Meira Monteiro afirma que o 1956 da arte brasileira deve ser compreendido também no contexto mundial. No mesmo ano em que JK assumiu a Presidência e Guimarães Rosa e Samuel Rawet lançaram obras-primas, o francês Albert Camus publicou o romance existencialista “A queda” , o líder soviético Nikita Kruschev denunciou os crimes de Stálin e os húngaros se rebelaram contra o totalitarismo comunista.

Na avaliação de Meira Monteiro, estavam em jogo a tensão entre o projeto “racionalista” do pós-guerra e os “sonhos” que apontavam para os limites dessa proposta.

— É como se o racionalismo tivesse tomado um susto com seu próprio poder. Isso aparece nas disputas dos concretistas, na grandiloquência de Brasília e até na saída encontrada pela literatura de Campos de Carvalho, que é a alucinação — afirma.

Henrique Balbi, da Unicamp, lembra que os processos que estavam a todo vapor em 1956, nas artes e na política, foram interrompidos com o golpe militar de 1964 — o mesmo ano da publicação de “A paixão segundo G.H”, de Clarice Lispector , que, de certa forma, tenta responder esteticamente à monumentalidade de “Grande sertão”.

— O ano de 1956 marca um auge e um final que não é imediato, que só ocorre na década seguinte, quando os processos artísticos mudam. Com exceção de Samuel Rawet, os autores de 1956 privilegiavam o romance e, depois dos anos 1960, vamos viver o auge dos contos. E a literatura vai perder sua centralidade na cultura para outras formas artísticas, como o cinema, o teatro e a música — explica Balbi.

Para Meira Monteiro, no período de 1956 a 1964, a arte contribuiu para a criação de uma imagem de Brasil que é “complexa, cheia de dúvidas em relação ao futuro e promissora”. Se, por um lado, essa imagem pode ser “autocongratulatória” e encantada consigo mesma, ela também revela os impasses de um país marcado pela concentração de poder e riqueza, cujo enfrentamento seria paralisado pela ditadura.

— Ano de 1956 é uma promessa e também um alerta — diz ele.