"Nana, neném, que a Cuca vem pegar. Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar." A cantiga de ninar atravessou gerações de brasileiros, mas sua autoria é desconhecida. Como acontece com muitas histórias do folclore, ela foi transmitida de boca em boca, de pais para filhos e de avós para netos.
Hoje, talvez a imagem que você tenha da Cuca seja a de um jacaré com uma peruca loira —aquela que até já virou meme. Mas ela nem sempre foi assim.
A Cuca brasileira tem parentes do outro lado do oceano. Em Portugal e na Espanha, criaturas conhecidas como Coca ou Coco já faziam parte das tradições populares muito antes de a personagem ganhar a aparência que conhecemos. Eram seres assustadores, associados ao medo de ser devorado ou levado para longe de casa. Na maioria das histórias, ela era um fantasma, uma alma-penada usada para assustar crianças.
Em uma época em que sair para ir à rua era bem menos seguro do que é hoje, e muitas crianças desapareciam ao cair da noite, essas lendas ajudavam a manter os pequenos mais perto dos mais velhos.
Em Portugal , a cantiga de ninar diz algo como: "Vai-te, Coca, vai-te, Coca, para cima do telhado. Deixa dormir o menino um soninho descansado". Na versão portuguesa, a letra manda o monstro embora para proteger o sono do bebê. Na brasileira, a Cuca é usada como uma ameaça.
A personagem também aparece em festas populares como uma criatura semelhante a um dragão. Em celebrações religiosas, figuras desse tipo percorrem as ruas e encenam combates com personagens que representam são Jorge.
No Brasil, ela se transformou ao longo do tempo. Antigamente, era descrita como uma velha assustadora, magra, enrugada, corcunda e de cabelos brancos, capaz de se transformar em animal.
A pintora Tarsila do Amaral também criou sua própria versão. Na tela "A Cuca", um animal amarelo de olhos grandes e orelhas pontudas aparece em meio à vegetação, acompanhado de outros bichos.
A imagem do jacaré ganhou força com o escritor Monteiro Lobato . No livro "O Saci", publicado em 1921, a Cuca aparece como uma bruxa velha com rosto de jacaré e unhas compridas, semelhantes às de um gavião. Lobato ajudou a dar forma a uma personagem que já existia na tradição oral, levando-a para o universo da literatura infantil.