A saída de Peña representa um novo capítulo na política do país, que já registrou outros casos de líderes que não terminaram seu mandato, renunciando ou sendo impichados.
A posse de Peña em 2023 representava mais cinco anos garantidos para o Partido Colorado, que comanda a política do país há sete décadas —antes mesmo da ditadura do general Alfredo Stroessner (1954—1989). Nesse período, a única exceção foi o ex-bispo de esquerda Fernando Lugo (2008–2012), alvo de impeachment a meses de concluir o mandato.
Veja a seguir os presidentes paraguaios que encerraram seu mandato antes do previsto:
Lugo foi eleito em 2008 para comandar o Palácio de Los López pela coalizão de partidos de centro-esquerda Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol). Conhecido no país como o "bispo dos pobres", era um clérigo da Igreja Católica alinhado às ideias da Teologia da Libertação. Ele venceu a candidata governista Blanca Ovelar com mais de 10% de diferença nos votos, mas nunca teve a maioria no Congresso e dependeu de alianças como o Partido Liberal para conseguir aprovar seus projetos.
Com a insatisfação da elite agrária local e dos colorados, somada a escândalos pessoais como a revelação de ser pai na época em que ainda era bispo , Lugo teve dificuldade de conseguir avançar em suas pautas.
O estopim para sua queda foi o episódio de violência conhecido como " Massacre de Curuguaty ", quando 11 camponeses e seis agentes de segurança foram mortos durante um confronto armado entre polícia e camponeses durante a reintegração de posse de uma fazenda, de propriedade formal da Marinha.
A oposição e alguns de seus aliados responsabilizaram Lugo pelo ocorrido, devido às suas relações próximas com movimentos agrários. Em um processo-relâmpago, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment e o Senado destituiu o presidente do cargo no dia 22 de junho de 2012.
O ex-bispo aceitou a decisão, mas denunciou a situação como um "golpe parlamentar" . A rapidez na aprovação da saída do líder do Executivo paraguaio fez com que países vizinhos repudiassem o caso, com o Mercosul suspendendo o país temporariamente pela ruptura na ordem democrática.
Engenheiro civil de formação e ex-ministro da Fazenda, Raúl Cubas Grau foi o candidato a vice-presidente do militar Lino Oviedo pelo Partido Colorado nas eleições de 1998. Pouco antes do pleito, Oviedo foi condenado a 10 anos de prisão por orquestrar uma tentativa de golpe de Estado em 1996 , tendo sua candidatura cassada pelo Supremo.
Diante do caos no partido, Cubas assumiu a chapa e venceu contra o candidato da oposição, Domingo Laino, com uma diferença de 11 pontos percentuais.
Após assumir a Presidência em agosto do mesmo ano, Cubas cumpriu uma promessa de campanha polêmica e assinou um decreto concedendo indulto a Oviedo. O Judiciário considerou a medida ilegal, ordenando que o ex-candidato retornasse à prisão. O presidente eleito ignorou o requerimento.
A nação viveu uma grande tensão institucional por meses até que, em 23 de março de 1999, o vice-presidente e principal rival de Cubas dentro do Partido Colorado, Luis María Argaña, foi assassinado a tiros à luz do dia em Assunção .
A oposição culpou imediatamente os aliados de Cubas e Oviedo pelo crime, e milhares de manifestantes se reuniram em frente ao Congresso para o momento que ficou conhecido como o "Março Paraguaio". Atiradores de elite do governo dispararam contra os manifestantes , ferindo centenas de pessoas e matando oito.
Diante da iminente votação de seu impeachment, o presidente optou por renunciar ao cargo cinco dias após o massacre, fugindo do país com o apoio do então presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso . Cubas viveu em Santa Catarina e no Paraná, permanecendo exilado até 2002, quando voltou ao Paraguai para se apresentar à Justiça.
Assim que desembarcou em Assunção, o ex-presidente foi preso e respondeu aos processos, sendo absolvido das principais acusações por faltas de provas quanto ao seu envolvimento no atentado. Desde a conclusão de sua investigação, Cubas se retirou do cenário político paraguaio.