Ao resgatar o conto oral e a fábula lírica, o texto dialoga com a poética de obras anteriores do autor, mas afasta-se do desfecho fúnebre e do aniquilamento trágico, marca de peças como "Agreste" . A escolha é política. Em vez de construir um memorial da violência transfóbica ou enquadrar a dissidência de gênero sob a ótica da vitimização, Moreno concebe uma narrativa afirmativa.
A trama expõe o choque familiar, o julgamento comunitário e as pressões normativas, mas sustenta o princípio de que a identidade brota do indivíduo como uma força espontânea da própria natureza, imune às tentativas de soterramento moral. A síntese dessa postura ecoa na máxima: "há verdades que a terra não enterra".
Na Sala Paschoal Carlos Magno, a encenação de Elias Andreato aposta no despojamento e na contenção. O espaço converte-se em um tablado de confissão íntima, favorecido pela proximidade direta com a plateia. O desenho de luz de Cleber Eli traduz as oscilações da memória: focos secos nos momentos de cerceamento social contrastam com banhos de luz quente nas passagens de afeto e revelação. A trilha sonora, também concebida por Andreato, atua no ritmo da narrativa, sustentando a cadência da palavra e os silêncios da solidão.