Ao menos por enquanto, é nesse limbo instigante que gravita uma descoberta anunciada nesta semana: a possível preservação de células do sangue, com algumas das moléculas típicas dos chamados glóbulos vermelhos, num dinossauro que viveu e morreu há 115 milhões de anos, no atual Ceará .
Lembro-me bem de quando o bicho, batizado de Aratasaurus museunacionali , recebeu formalmente seu nome científico e foi apresentado ao público numa teleconferência durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19. "O fóssil se resume à perna direita, com pedaços do fêmur, da tíbia e do pé, incluindo dedos e garras", escrevi na época. Em vida, o animal, um predador, media pouco mais de 3 metros, mas ainda estava em fase de crescimento.
Acontece que os responsáveis pela descoberta original, entre eles Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ, agora colaboraram com uma equipe internacional, liderada por Kliti Grice, da Universidade Curtin (oeste da Austrália), para analisar os ossos do Aratasaurus por dentro. Resultado: identificaram "microestruturas elipsoidais" –como diz o artigo que eles acabam de publicar na revista científica PNAS – que eles inferem ser glóbulos vermelhos.
O grande argumento em favor da proposta vem da análise bioquímica das tais microestruturas. A equipe identificou nelas o que se parece muito com uma forma degradada do chamado grupo heme, parte das moléculas de hemoglobina que carregam o oxigênio no sangue conforme nós e outros animais respiramos.
Estudos publicados ao longo da primeira década deste século já tinham flagrado moléculas orgânicas aparentemente preservadas em fósseis de dinossauros, com destaque para o colágeno, componente comum dos músculos e ossos. Convém dizer que, se descobertas como essas estiverem corretas, isso não significa que houve uma preservação miraculosa, como se a coxa dos bichos tivesse acabado de ser comprada no açougue. As proteínas foram significativamente alteradas pela passagem do tempo, mas ainda guardam semelhanças com sua composição original.
Bem, hora de despejar um pouco de água no chope. Por ora, a comunidade científica está intrigada com as descobertas, mas ainda há espaço considerável para o ceticismo. O principal argumento contrário à preservação de glóbulos vermelhos propriamente ditos é o fato de que ambos os parentes vivos mais próximos dos dinossauros –o grupo dos jacarés e crocodilos, de um lado, e o das aves (que, a rigor, são dinos viventes), do outro– têm glóbulos vermelhos com núcleo. E não é isso o que se vê nas estruturas preservadas no dinossauro cearense.
Nesse caso, talvez o grupo heme de fato esteja lá, mas não as células, o que já seria para lá de extraordinário. Que o debate e os enigmas continuem.