O impacto sanitário e econômico do aquecimento do planeta cresceu de forma acentuada nos dez anos que se seguiram à assinatura do Acordo de Paris sobre o clima , em 2015. Com o objetivo de conter as mudanças climáticas, o pacto histórico foi saudado à época como "o mais importante acordo de saúde pública do século".
Ainda assim, as mudanças climáticas foram responsáveis por mais de meio milhão de mortes relacionadas ao calor apenas em 2023 e por quase 3 milhões desde 2016. A área afetada por secas extremas, que ameaçam o abastecimento de água e alimentos e aumentam o risco de doenças, cresceu mais de 700% mais rápido do que na década anterior. E o calor causou uma perda estimada de 1,07 trilhão de dólares (cerca de R$ 5,7 trilhões) em renda potencial no mundo no ano passado, segundo o relatório anual Lancet Countdown sobre Saúde e Mudanças Climáticas.
"Isso não pode continuar", diz Alan Dangour, diretor de clima e saúde da Wellcome Trust, uma das maiores instituições de caridade do mundo, que financiou o relatório da Lancet. "Precisamos mudar de rumo e colocar a saúde e o bem-estar das pessoas no centro de nossa resposta às mudanças climáticas, medindo o sucesso não por metas de emissões ou graus Celsius, mas por vidas salvas e melhores resultados de saúde."
As conclusões mais recentes do estudo da Lancet mostram quão rapidamente os riscos à saúde estão aumentando ao comparar esta década com a anterior à assinatura do Acordo de Paris.
O calor é o exemplo mais evidente. As mudanças climáticas foram responsáveis por 68% das mortes relacionadas ao calor entre 2016 e 2023, acima dos 55% observados na década anterior. O aumento anual das mortes provocadas pelo calor associado ao clima mais do que dobrou no mesmo período.
Mas as mortes são apenas "a ponta do iceberg", disse Ollie Jay, do Centro de Pesquisa em Calor e Saúde da Universidade de Sydney. "Exceto que esse iceberg não está derretendo, ele está crescendo a cada ano."
Em uma analogia, abaixo da superfície estão também casos de insolação, perda de sono e agravamento de condições crônicas de saúde.
Os prejuízos econômicos também estão aumentando. Trabalhar sob calor extremo expõe as pessoas ao risco de exaustão térmica, doenças ou lesões e, por fim, à perda de renda e meios de subsistência.
O calor eliminou 573 bilhões de horas potenciais de trabalho em 2025, com os trabalhadores rurais sendo os mais afetados. Economias vulneráveis da África e do Sudeste Asiático sofreram os maiores impactos, com perdas chegando a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), em comparação com 0,5% nas economias mais desenvolvidas.
"O custo econômico está atingindo com mais força os setores e comunidades mais vulneráveis", disse Marina Romanello, diretora executiva do Lancet Countdown, vinculada à University College London, durante uma coletiva de imprensa.
Os extremos relacionados à água também estão se intensificando. Dados de satélite mostram que, desde 2003, 43% das terras do mundo vêm se tornando progressivamente mais secas, enquanto 37% estão ficando mais úmidas. Juntas, essas mudanças significam que 80% das áreas terrestres estão migrando para condições extremas que ameaçam colheitas, abastecimento de alimentos e sistemas de saneamento.
A seca pode deixar populações sem acesso à água potável segura e aumentar o risco de doenças infecciosas, enquanto as enchentes provocam afogamentos, ferimentos e contaminação da água.