CEO da Audi sofre fritura na Alemanha após participar de comício de Trump

Executivo anuncia fábrica da marca nos EUA enquanto fechamento de unidade é discutido na Alemanha

Por Admin ·

CEO da Audi sofre fritura na Alemanha após participar de comício de Trump

Sindicalistas criticam aparição, e ministro do Meio Ambiente vê aposta equivocada em energia fóssil

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Berlim "A Audi aposta no cavalo errado". A tradução literal é mais forte, cavalo morto, mas daria um sentido ainda mais agudo às críticas do ministro do Meio Ambiente da Alemanha , Carsten Schneider, à decisão da montadora de montar uma fábrica de SUVs nos EUA.

No fim de semana, a marca de carros de luxo ganhou o noticiário devido a uma inusitada participação de seu CEO, Gernot Döllner, em um comício eleitoral de Donald Trump , na Geórgia. Em baixa nas pesquisas a poucos dias das eleições de meio de mandato, o presidente americano chamou o executivo ao palco para anunciar a construção da primeira fábrica da Audi em solo americano .

"Planejamos trazer nossos SUVs maiores e mais sofisticados e produzi-los aqui em Macon, na Geórgia", disse Döllner no púlpito, cedido por Trump durante mais de um minuto. "Este é um investimento de longo prazo porque acreditamos no mercado norte-americano."

Um modelo Q9 dourado em exibição na porta do evento, na cidade de Perry, deixava claro que a participação não tinha nada de espontâneo. Mais tarde, conversando com jornalistas, Döllner procurou se justificar: "Quando o presidente americano lhe faz um convite, você aceita o convite". Faltou combinar com os alemães.

A Audi não escapa da reestruturação do cambaleante grupo Volkswagen e planeja encerrar a produção na fábrica Neckarsulm, berço dos modelos mais caros da marca, até 2030. Um corte de ao menos 15 mil funcionários . Há três anos no cargo, Döllner já fechou uma planta na Bélgica e demitiu 7.500 empregados na sede da empresa , em Ingolstadt.

Era, até o fim de semana, um dos dirigentes do grupo que melhor estava se saindo na discussão com conselhos de fábrica e sindicatos, que têm um peso excepcional no desenho corporativo da Volkswagen. A crise da montadora é, na prática, um assunto de Estado na Alemanha, acompanhada de lupa por analistas, imprensa e opinião pública.

Desde a subida ao palco de Trump, porém, em que prometeu 4.500 empregos do outro lado do Atlântico, Döllner vem lidando até com pedidos de renúncia.

Um manual de conduta interno da Audi, revisado neste ano e assinado pelo CEO, impõe de maneira expressa a neutralidade política durante eleições. Exceções são possíveis, desde que deliberadas antes pela direção da empresa.

Representantes dos trabalhadores no Conselho da Audi chegaram a ser notificados da participação do executivo no comício americano, mas com menos de 48 horas de antecedência, segundo o jornal econômico Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Para Daniela Cavallo, representante dos trabalhadores no Conselho do grupo VW, um estamento superior, Döllner deveria "se envergonhar profundamente".

Cavallo chamou a atenção para o ambiente em que o executivo se colocou, lembrando da verborragia de Trump no comício, descrito por ela como "vários minutos de racismo, sexismo, xenofobia, transfobia e desprezo pela democracia".

"Nossa direção se deixou transformar em marionete no espetáculo de propaganda de uma figura política extremamente questionável, que viola praticamente todos os nossos valores corporativos."

Em carta aos funcionários da Audi, Döllner reconheceu que a presença no comício provocou "questionamentos e incompreensão". Explicou as circunstâncias do convite e defendeu o projeto voltado para o segundo maior mercado premium do mundo. A China, principal fonte de problemas da VW neste momento, é o primeiro.

"Um evento de campanha não é o lugar apropriado para anunciar investimentos", declarou Olaf Lies, governador da Baixa Saxônia, que tem dois assentos no Conselho da VW e 20% das ações da empresa. Christian Benner, chefe do sindicato IG Metall, o mais poderoso da Alemanha, classificou a conduta de Döllner como "constrangedora".

"Nós, de fato, estimulamos o grupo a conquistar novos mercados e isso inclui, naturalmente, a América do Norte. Mas, ao mesmo tempo, precisamos de uma perspectiva segura para os funcionários das fábricas locais", declarou a socióloga em uma entrevista.

"As duas coisas não são necessariamente contraditórias."

Para Schneider, o ministro do Meio Ambiente, a contradição da Audi é outra, depositar suas fichas em carros como o Q9, modelo extravagante da marca, com 5,31 m de comprimento e 2,21 de largura, concebido para o mercado americano. "Enquanto grande parte do mundo caminha rumo à tecnologia superior da eletromobilidade, a Audi aposta em combustíveis fósseis", declarou o integrante do governo Friedrich Merz.

"Além das circunstâncias, no mínimo, desagradáveis que envolvem esse anúncio, também é preciso ter dúvidas sobre a viabilidade dessa decisão a longo prazo."

A Audi vai gastar US$ 4 bilhões (R$ 20,1 bilhões) na instalação da fábrica nos EUA, que deve começar a produzir em 2030, quando o cenário político no país pode ter se alterado. Trump cortou subsídios para os carros elétricos, defende o uso de combustíveis fósseis e recentemente derrubou limites de emissões de veículos .

Uma política reacionária, provavelmente sem fôlego para ter continuidade em uma nova administração.

Por outro lado, o presidente americano criou tarifas impraticáveis para carros importados, deixando a Audi em uma situação de concorrência delicada —diferentemente das concorrentes Mercedes e BMW, não possui fábrica nos EUA, o que explica a decisão pragmática de Döllner.

Segundo The Wall Street Journal, a Audi ouviu promessa nesse sentido da gestão Trump durante as negociações, nas últimas semanas.

O executivo, de qualquer forma, terá que se manter persuasivo na Alemanha. O mesmo Conselho que critica sua conduta precisará aprovar a fábrica na Geórgia.