A Folha visitou seis cemitérios da capital paulista, além do Crematório Vila Alpina, nos dias 21 e 22 de outubro e retornou aos mesmos locais em 2 e 3 de novembro.
A pior situação encontrada foi a do Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, administrado pela Cortel. O mato alto encobria as sepulturas, impossibilitando a localização dos túmulos, inclusive na área dos jazigos particulares. Também havia acúmulo de sujeira. O banheiro feminino exalava odor forte, não tinha água nas três pias e faltava sabão. As vias asfaltadas acumulavam lama, as placas indicativas estavam enferrujadas e desgastadas e as placas dos túmulos e gavetas apresentavam nomes apagados.
A contadora Adriana Moraes, 58, afirmou ter de lidar com o problema de perto. A mãe dela morreu em 2022, antes da concessão do serviço, e ali foi enterrada. Um ano depois, Adriana comprou um jazigo particular no local atraída pela promessa de um cemitério em estilo jardim. "Mas o que encontrei foi mato alto e sujeira." Ao tentar agendar a exumação do pai, morto em agosto de 2023, após a concessão, Adriana disse ter sido informada de que não há mais vagas para exumações em 2026 e que terá de retornar em janeiro. Em nota, a Cortel SP afirmou que regularizou a situação do banheiro feminino e programou capina das quadras. A empresa disse que intervenções nas vias dependem de aprovação de plano e que chuvas causaram deslocamentos de terra, além de afirmar que a limpeza interna e o reparo de construções particulares cabem aos cessionários, segundo decreto municipal.
Sobre as exumações, disse que os procedimentos seguem cronograma por força-tarefa, com previsões até janeiro de 2027 devido ao alto volume. A SP Regula, agência reguladora da Prefeitura de São Paulo, afirmou que investiga a situação das exumações. Na zona leste, o Vila Formosa, da Consolare, tinha mato alto entre as sepulturas, sacos de lixo e entulho no chão na primeira visita da reportagem. Na segunda ida ao local, o mato estava cortado e não havia lixo. O cemitério, no entanto, reunia túmulos abertos, placas apagadas e excesso de propaganda de jazigos e planos na entrada dos velórios, o que incomodou familiares. A Consolare afirmou que a zeladoria no Vila Formosa é organizada por quadras com recolhimento diário. Sobre a oferta de jazigos e planos funerários, disse que os materiais seguem regras do poder concedente, mas serão reavaliados. A concessionária acrescentou que o local conta com vigilantes, apoio da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e cobrança de estacionamento autorizada.
Na mesma região, o complexo Vila Alpina, da Velar SP, tinha um contraste: enquanto o cemitério São Pedro apresentava mato alto, sujeira nas vias, falta de placas e somente banheiros químicos, o crematório Vila Alpina, logo ao lado, contava com instalações limpas, banheiros em bom estado e ambiente silencioso. Sobre o cemitério São Pedro, a Velar SP disse que a limpeza é permanente e setorizada, podendo gerar defasagens pontuais devido à extensão de 226 mil m² e às fortes chuvas. A concessionária afirmou que as reformas buscam melhorias previstas em contrato e ocorrem de forma isolada, prevendo a entrega de seis salas de velório em novembro e que os banheiros químicos atendem adequadamente até a conclusão das obras.
Cemitérios sob concessão de São Paulo têm mato alto, túmulos quebrados e banheiros sujos
Cemitérios concedidos à iniciativa privada na cidade de São Paulo apresentam um cenário de quase abandono: sepulturas violadas, mato alto, banheiros sujos sem água nem sabão, vias esburacadas e acúmulo de entulho. A degradação afeta a circulação de visitantes,