Carta golpista de Flávio Bolsonaro remete à autoproclamação de líder venezuelano como presidente

Em busca de um verniz democrático para sua investida golpista, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se autoproclamou o "verdadeiro presidente eleito" em uma carta divulgada por apoiadores nesta quarta-feira (28), remetendo ao que fez Juan Gua

Por Admin ·

Carta golpista de Flávio Bolsonaro remete à autoproclamação de líder venezuelano como presidente

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por liderar uma tentativa de golpe em 2022, afirmou ainda haver uma "impossibilidade matemática" no pleito que reelegeu o presidente Lula (PT). Depois, em uma nova versão da carta publicada nas redes sociais, Flávio referiu-se a si mesmo não mais como "presidente eleito", mas sim como "o líder do Brasil".

O ditador venezuelano Nicolás Maduro foi reeleito em 2018 em um pleito sem os principais líderes oposicionistas, que não foi considerado livre ou justo por organismos internacionais. Rejeitaram o resultado da eleição a União Europeia e países como Brasil, Canadá, Japão, Reino Unido e Estados Unidos.

Em comunicado publicado à época , o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, afirmou que o pleito ocorreu "sob uma falta generalizada de liberdades públicas, com candidatos e partidos banidos e com autoridades eleitorais sem qualquer credibilidade".

"As eleições foram realizadas com mais de 300 presos políticos atrás das grades e com o Estado utilizando todos os recursos à sua disposição para a farsa."

Já o pleito brasileiro deste ano teve a legitimidade reconhecida pelos mais renomados observadores eleitorais, entre eles a OEA, e por mais de 100 países, segundo levantamento da CNN —uma série deles governados pela direita, como a Itália, o Chile, o Peru e El Salvador .

A condução adequada das eleições também foi validada pela oposição democrática e pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal) por Bolsonaro.

Quando Guaidó se autoproclamou presidente, reconhecido por cerca de 60 países, a Venezuela já era tratada pelo V-Dem (Variedades da Democracia), o principal instituto que avalia a qualidade das democracias pelo mundo, como uma autocracia eleitoral. O termo dá conta de países que realizam eleições, mas que não garantem requisitos mínimos para que elas sejam livres e justas.

Hoje o V-Dem considera o Brasil uma democracia eleitoral , em processo de recuperação da investida autoritária dos anos Bolsonaro.

Em 2019, quando Guaidó deu início a um governo paralelo, já havia na Venezuela registros de prisões arbitrárias em massa durante manifestações, execuções extrajudiciais e tortura.

Relatório do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos relatava que os maus-tratos e atos de tortura documentados "incluíram choques elétricos, espancamentos severos, estupro e outras formas de violência sexual, asfixia com sacos plásticos e produtos químicos, simulações de execução e privação de água".

Os presos venezuelanos foram perseguidos por crimes políticos, enquanto Flávio é investigado por crimes comuns, como a suspeita que envolve lavagem de dinheiro por meio de bets, uma apuração em curso no Supremo.

O sistema de freios e contrapesos na Venezuela também estava seriamente comprometido no contexto da declaração de Guaidó. Em 2017, o Supremo Tribunal de Justiça, majoritariamente alinhado a Maduro, havia determinado que assumiria todas as competências da Assembleia Nacional —o argumento usado pelos juízes foi de que o Parlamento estaria desrespeitando as ordens do tribunal.

Em 2024, em outro pleito não reconhecido pela comunidade internacional, o opositor venezuelano Edmundo González também se autodeclarou presidente. Flávio Bolsonaro o citou em sua carta, assim como Guaidó.