Carta de Flávio Bolsonaro mente sobre 'fraude eleitoral' e distorce fatos; veja

A carta golpista divulgada por Flávio Bolsonaro ( PL ) nesta quarta-feira (28) tem uma série de mentiras e distorções sobre o processo eleitoral no qual ele saiu derrotado.

Por Admin ·

Carta de Flávio Bolsonaro mente sobre 'fraude eleitoral' e distorce fatos; veja

O documento foi divulgado horas após ele fugir para os Estados Unidos em um jatinho.

O senador publicou duas versões do documento em seu perfil no Twitter. Pouco antes, aliados tinham divulgado outras duas.

Na primeira versão divulgada por Flávio se apresentou como "verdadeiro presidente do Brasil". Depois trocou para "líder".

Já no texto divulgado anteriormente por aliados, o senador se dizia "presidente eleito". Essa primeira versão também tinha o brasão usado desde a fundação da República, em 1889, até a ditadura militar, com a frase "Estados Unidos do Brazil", com z. Na seguinte, a imagem foi substituída por imagem com a inscrição "República Federativa do Brasil".

Veja as mentiras e distorções da carta.

"Sou o líder e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania."

A declaração de Flávio é um posicionamento político de teor golpista.

O resultado das eleições foi confirmado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) às 21h10 de domingo (25). Lula ( PT ) foi eleito presidente com 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% do senador.

O tribunal, inclusive, é presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques , indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal) por Jair Bolsonaro (PL).

A alegação de que "criminosos roubaram a eleição" não é sustentada em fatos. Não há evidências de que tenha havido fraude nas urnas. Observadores nacionais e internacionais participaram da fiscalização do pleito, sem constatar qualquer indício de interferência.

Fiscais de partidos políticos —inclusive do PL, legenda de Flávio— acompanharam a totalização e divulgação dos resultados. Além disso, o próprio PL e o candidato a vice-presidente na chapa, Alfredo Gaspar, também reconheceram o resultado das eleições.

"A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes."

Como mostrou a Folha , só 34.330 votos, ou 0,03% do total, foram registrados após as 17h de domingo, conforme levantamento feito com base em registros do TSE. O presidente Lula venceu por uma diferença de 4,43 milhões de votos.

A decisão de Zanin de manter as urnas abertas após as 17 horas de domingo, portanto, teve impacto ínfimo no número total de votos e não mudaria o resultado final. O próprio presidente do TSE, Kassio Nunes Marques , afirmou, após a confirmação da vitória do presidente Lula, que a prorrogação no prazo de fechamento das urnas não causou problemas na totalização dos votos.

A prorrogação foi determinada após pedido da campanha do presidente Lula (PT), devido a restrições no acesso ao transporte público em algumas cidades. No entanto, o candidato do PL também pediu prorrogação em alguns locais do país, devido às chuvas ao TSE.

Além disso, é falso dizer que a vitória de Lula tenha sido "uma impossibilidade matemática". A virada do petista é explicada pela distribuição do saldo de votos a mais existente entre os turnos da eleição.

O total de votos possíveis de serem conquistados somou 14 milhões, divididos entre: os 9,3 milhões de eleitores que votaram nos outros candidatos, 1,8 milhão de votos inválidos (brancos e nulos) a menos e as 3 milhões de pessoas a mais que compareceram.

Ambos os candidatos tiveram votos a mais em relação à sua própria votação no primeiro turno. Lula aumentou 10,3 milhões de sufrágios, já Flávio Bolsonaro (PL) cresceu em 3,7 milhões. Ou seja, a eficiência de Lula para conquistar votos foi 2,7 vezes a de Flávio no segundo turno.

"O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado."

Flávio fala em perseguição jurídica e cita seu pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por liderar uma trama golpista para permanecer no poder . A condenação foi feita por uma corte, com 4 votos a 1 pela condenação do ex-presidente. A defesa do presidente ainda questiona a decisão, pela via judicial, e pede uma revisão criminal.

A carta diz ainda que a família Bolsonaro é tratada como inimiga do Estado. Afora o irmão Eduardo Bolsonaro (que foi cassado e condenado por crime de coação), todos os adultos que integram o núcleo da família foram eleitos para cargos políticos com amplo apoio popular.

Michelle Bolsonaro , mulher de Jair, foi a senadora eleita com mais votos na história do Distrito Federal. Carlos Bolsonaro , irmão de Flávio, também foi eleito senador por Santa Catarina. Jair Renan, também irmão, se elegeu deputado federal, assim como seu tio, Renato Bolsonaro.

"Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil."

Flávio não entregou seus passaportes à Polícia Federal, conforme deveria ter feito após ser intimado pela Polícia Federal na segunda-feira (26) e saiu do Brasil na terça-feira (27) pela fronteira seca usando um documento italiano válido.

Ele e a família chegaram à Argentina às 22h50 de terça pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones. Pouco depois, embarcou em um jatinho rumo a Miami . O caminho exato de Flávio, da sua casa em Brasília até a Argentina, ainda é desconhecido.

"Saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece."

O Brasil é considerado uma democracia. Segundo a classificação publicada em março pelo V-Dem, instituto ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia, o Brasil inclusive superou os Estados Unidos no índice da "democracia liberal" . O indicador mede a qualidade do sistema no contexto de aspectos eleitorais, como a existência de eleições livres, justas e competitivas, e de aspectos liberais, como a independência entre os poderes e o respeito às liberdades civis.