Não trataremos aqui das políticas que seu governo deverá adotar. Nosso assunto é a conduta de quem governa. A forma não é um detalhe: influencia a confiança nas instituições, a disposição para cooperar e a legitimidade das decisões. Um presidente da República mostra pelo exemplo, todos os dias, o que considera aceitável na vida pública.
Comece por reconhecer que a vitória lhe confere um mandato, não a propriedade do Estado nem um certificado de infalibilidade. O país não se divide entre brasileiros merecedores de atenção e adversários a serem castigados. Recursos, serviços e oportunidades não podem depender da preferência eleitoral de cidadãos ou ocupantes de cargos públicos. A Presidência pertence à República; seu ocupante a exerce por tempo determinado.
Respeite as minorias em toda a extensão da palavra. Isso inclui todos os grupos sujeitos a discriminação, mas também aqueles que pensam de maneira diferente da sua. A maioria autoriza o governo a decidir; não o autoriza a humilhar, silenciar ou excluir. Quem discorda pode ter razões que mereçam ser ouvidas. A oposição não precisa de sua simpatia, mas tem direito ao seu respeito.
Faça da transparência uma prática cotidiana. Divulgue agendas, despesas, critérios de nomeação e fundamentos das decisões. Não use a proteção da intimidade como pretexto para impedir o exame de atos públicos. Não imponha 50 anos de silêncio a documentos que permitam avaliar a conduta do governo.
Não procure atalhos para favorecer aliados nem pressione órgãos do Estado a perseguir adversários. As regras devem valer igualmente para amigos, familiares, colaboradores e opositores. Não peça a um servidor que faça aquilo que o senhor não poderia defender publicamente.
Cuide da liturgia do cargo . Ela exige respeito às instituições, sobriedade nas cerimônias e consciência de que a palavra presidencial tem consequências. Seja austero e não transforme entrevistas, discursos e redes sociais em prolongamentos do palanque. É possível defender convicções com firmeza e responder a críticas sem agressividade. O exemplo presidencial pode estimular contenção ou legitimar excessos em toda a administração.
Escolha pessoas pela competência e pela integridade. A confiança política importa, mas não substitui conhecimento, experiência e capacidade de gestão. Forme equipes capazes de discordar, apresentar fatos desagradáveis e corrigir decisões. Um auxiliar que só concorda pode ser confortável; dificilmente será o mais útil ao país.