Canção feita para desagradar mistura ópera, rap e propaganda de supermercado

No ano que vem, em 2027, "The Most Unwanted Song" (A Canção Mais Indesejada) completa 30 anos de lançamento. Na faixa, a talentosa soprano Dina Emerson faz um rap sobre caubóis, enquanto um coro infantil celebra o Natal e recomenda compras

Por Admin ·

Canção feita para desagradar mistura ópera, rap e propaganda de supermercado

Entre vozes, instrumentos e mensagens publicitárias, a combinação parece empenhada em expulsar o ouvinte. Essa era a proposta: criar uma música a partir de elementos rejeitados em uma consulta sobre preferências musicais.

Lançada em 1997 no CD "The People's Choice Music", a faixa reúne os artistas conceituais russos Vitaly Komar e Alex Melamid, o compositor americano Dave Soldier e a letrista Nina Mankin. A gravação tem cerca de 22 minutos e pode ser ouvida no Bandcamp de Soldier e no Spotify .

O título, porém, deve ser entendido como parte da provocação artística. A documentação do projeto descreve uma composição orientada por respostas a um questionário, sem demonstrar que ela seja, cientificamente, a música mais chata ou irritante do mundo.

A ideia prolongava uma experiência de Komar e Melamid nas artes visuais: produzir pinturas com características escolhidas pelo público. Para a versão musical, Soldier elaborou uma pesquisa respondida por aproximadamente 500 visitantes do site da instituição americana Dia, em 1996. As perguntas tratavam de instrumentos, vozes, temas, duração, volume e andamento.

Acordeão e gaita de fole empataram na liderança da rejeição aos instrumentos, com 13% cada. Banjo, tuba, harpa e órgão também entraram na combinação indesejada. O arranjo explora mudanças bruscas entre passagens fortes e suaves, rápidas e lentas, além do contraste entre sons muito agudos e graves.

A lógica também orientou as vozes. Como ópera e rap apareciam entre os estilos menos apreciados pelos participantes, Emerson recebeu a tarefa de aproximá-los. O coro infantil acrescentou outro componente mal avaliado na consulta.

Nas letras, caubóis dividem espaço com referências ao filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951). As crianças cantam sobre Natal, Páscoa e outras celebrações, sempre retomando a recomendação de comprar no Walmart. A repetição transforma o calendário em uma sequência de oportunidades de consumo.

O mesmo levantamento originou "The Most Wanted Song" (A Canção Mais Desejada). Nela, vozes graves, uma história de amor e uma formação instrumental próxima à do pop procuravam atender às preferências declaradas. As duas faixas compunham uma experiência sobre a possibilidade de transformar respostas individuais em uma receita musical.

É nas notas do compositor que aparece a previsão de que menos de 200 pessoas em todo o planeta gostariam da faixa indesejada. O cálculo dependia de uma hipótese: a preferência por cada elemento não teria relação com a preferência pelos demais. Não se tratava de uma contagem de ouvintes nem de um teste sobre quantas pessoas suportariam a gravação inteira.

Soldier é o nome artístico do neurocientista David Sulzer, da Universidade Columbia. Sua atuação científica, entretanto, não transforma a consulta em uma medida universal de qualidade musical. O recrutamento de visitantes de um site, por si só, tampouco permite estender as respostas à população mundial.

Os próprios criadores encontraram motivos para relativizar a previsão. Em entrevista ao programa de rádio "This American Life", Soldier contou que passou a gostar das duas composições e que músicos lhe relatavam preferir justamente a indesejada. Melamid também mencionou manifestações de entusiasmo pela obra.

Ouvi "The Most Unwanted Song" do começo ao fim e gostei. Talvez porque a mistura quase caótica me remeta a algumas composições de Frank Zappa (1940-1993) e Arrigo Barnabé, músicos e compositores que respeito e admiro. Sempre gostei de suas músicas, continuo gostando e sempre gostarei. Afinal, o que é o gosto senão esse encontro entre uma obra e nossas memórias, referências e disposição para descobrir algo novo?